quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sem permissão para mergulhar





Like any uncharted territory
I must seem greatly intriguing
You speak of my love like
You have experienced love like mine before
But this is not allowed
You're uninvited
An unfortunate slight
(Uninvited – Alanis Morissette)


Imagine que a vida é um imenso mar. Dia desses estava pensando nisso. Quando você se depara com o mar, sente aquela mistura de sensações, de sentimentos. Dá vontade de correr e se entregar. Mas o medo também te segura, te impede de se atirar do jeito que gostaria. Então, aos poucos, você se aproxima dele, ganha confiança, sente a água fria tocar os pés, subir rumo aos joelhos, coxas, alcançar a cintura e, quando percebe, praticamente todo o corpo está embaixo d’água.

E então? O que fazer? Você pode optar por ficar ali, no lugar que te traz certa segurança: os pés ainda tocam a terra e basta ter cuidado para não ser arrastado por uma ou outra onda mais forte. Admirado, até olha o horizonte, todo aquele mar a sua frente, tantas possibilidades, mas é melhor não se arriscar. 

No entanto, há pessoas que possuem um instinto mais aventureiro ou corajoso (como preferir). Esses não pensam muito e logo se atiram ao mar, nadam para todos os lados, exploram o que for possível e parecem não ter medo. Ou fingem bem. Não se apegam a locais específicos, não criam raízes e aproveitam a experiência de maneira mais desprendida. Gostam da superfície. Já me disseram que essa maneira de agir diante do mar (VIDA) talvez seja a mais inteligente. Será?

Uns têm medo, ficam à margem, olham o mar e até se contentam em molhar só os pés. Outros nadam sem parar, se lançam sem medo, mas ficam apenas na superfície. Mas além desses, há os que desejam conhecer o fundo do mar. Gostam de profundidade. Não podem viver sem saber o que está submerso, quais as surpresas, os desafios e as belezas que as águas profundas escondem. 

Para esses não bastam apenas coragem e um bom preparo físico. É preciso equipamento, máscara, roupa apropriada, cilindro de ar, treinamento. Isso já é suficiente para perceber que ir ao fundo exige aparatos especiais, preparação, afinal, se trata de uma atividade mais arriscada, ou seja, mais perigosa. Na vida, quem se dispõe a mergulhar com profundidade precisa estar ciente dos riscos que corre. Mas também deve saber das recompensas que vai encontrar no caminho.

Quando mergulhar, muitas espécies de animais e plantas marinhas estarão diante dos teus olhos. Os corais mais lindos vão te encantar e a perfeição de tudo aquilo certamente vai te fazer pensar: Viver é maravilhoso! Mesmo diante de tanta beleza, é importante não perder o foco. Alguns perigos podem se apresentar e, nesse caso, estar atento vai fazer toda a diferença. Sem falar da importância de controlar o tempo, para não ficar sem ar e morrer afogado (o que seria um fim bem trágico).

É lógico que essa alegoria não é rígida. Em alguns assuntos queremos aventura, para outros desejamos cautela. Há momentos e questões que despertam nosso desejo pela profundidade, outras vezes queremos que as coisas aconteçam da maneira mais superficial possível. E assim alternamos nossos comportamentos, nossas decisões.

Recentemente compartilhei essa reflexão com uma pessoa. Ela, imediatamente, me situou no grupo das pessoas que vivem com profundidade. Confesso que, em muitos aspectos, realmente repito esse padrão, especialmente quando se trata de mim mesma. Não consigo imaginar quão chato seria viver um relacionamento superficial com si próprio. Já faz um tempo que decidi mergulhar em mim, me conhecer melhor e quem faz isso sabe os frutos que pode colher.

Quando se trata das relações interpessoais, a situação não é tão fácil. Mergulhar no mundo do outro exige muita disposição e abertura. Não adianta estar disposto, se o outro não der a permissão para que isso aconteça. Quando acontece, é como magia, criando laços e sintonia inexplicáveis entre aqueles que vivenciam a experiência. Mas não se esqueça: o mergulho sempre oferece algum risco. Conhecer a fundo as qualidades e os defeitos de alguém não é tarefa das mais simples. Pode ser que você deseje voltar imediatamente à superfície e correr para casa, porque não quer mais se deparar com o que viu. Mas pode ser que, mesmo diante dos defeitos e dificuldades, você deseje apenas mergulhar mais e mais.

Talvez por isso seja tão importante reconhecer quando se tem (ou não) permissão para mergulhar. Às vezes a gente realmente se fecha e não quer se mostrar além do básico, do superficial. E essa decisão precisa ser respeitada. E o mesmo acontece com aqueles com quem convivemos. Não dá pra forçar a barra. Se não te deram permissão, não mergulhe! Ou ainda, pode ser que você se conheça tão bem a ponto de saber que não deve mergulhar. Aí é mais sério: se nem você se deu permissão, seja fiel a esse sentimento e NÃO MERGULHE!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Whole30: Novos horizontes, novas percepções.



No final de setembro decidi dar uma chance ao Crossfit, após os convites de alguns amigos que são apaixonados por esse tipo de treinamento. Fiz uma aula experimental na CrossFit Pantanal e resolvi continuar. Antes mesmo de me matricular, soube que durante o mês de outubro o box participaria de um programa chamado Whole30, que reúne boxes de todo o país.

Esse programa tem o objetivo de proporcionar, a partir de uma experiência de 30 dias, uma mudança na alimentação dos participantes. Esse objetivo é alcançado por meio de uma transformação da maneira como vemos os alimentos e passa pelo desafio de cortar alguns deles, muitos dos quais estão totalmente inseridos no nosso cotidiano, como pães, leite e derivados, produtos industrializados em geral, açúcar, etc.

Inicialmente, não me pareceu algo muito complicado, especialmente pelo fato de não consumir leite e derivados desde 2013, quando descobri a intolerância à lactose. Mas os primeiros dias foram desafiadores. Como senti falta daquele pãozinho no café da manhã! E quão desafiador foi não poder usar nenhum tipo de açúcar, nem mascavo, nem demerara, nem mesmo um adoçante.

Mas os dias se passaram e aquela experiência começou a fazer parte do meu cotidiano. O café amargo já não era tão amargo assim e a necessidade de doce diminuiu. Busquei me organizar cada vez mais, dedicar mais tempo para preparar meus alimentos, montar marmitas e, com isso, evitar alimentações fora de casa (o que me auxiliou a fugir das tentações).

Ao mesmo tempo em que me habituava às mudanças alimentares, também precisava pegar o ritmo do Crossfit. Nesse caso, minha estratégia foi não faltar aos treinos, por maiores que fossem as dores musculares. 

Após um mês, confesso que experimentei algumas surpresas. A primeira delas aconteceu no dia 31/10, quando repetimos um treino realizado no início da dieta. Fiquei impressionada quando verifiquei que consegui reduzir meu tempo do treino em quatro minutos. Sem falar dos resultados da bioimpedância: redução de quase 4% no percentual de gordura corporal, menos 2,4 kg de massa de gordura e ainda apresentei ganho de massa muscular. Para um único mês, esses resultados me deixaram muito motivada.

Mas o principal ganho disso tudo está relacionado às mudanças de percepções que pude experimentar no decorrer do mês e que ainda estou experimentando. Essa participação no Whole30 me fez enxergar a alimentação a partir de novos horizontes, novas perspectivas e, com isso, pude estimular a minha consciência corporal. Sem falar das possibilidades de romper barreiras e acreditar mais no meu potencial, o que tenho sentido de forma muito intensa através do Crossfit.

O Whole30 foi só o começo. Que venham muitos outros dias de vida mais saudável, com a consciência de que não somos reféns da comida.


Uma pequena decisão pode causar uma grande mudança.





sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nas mãos de Ursula


Quando adolescente, boa parte do que eu lia eram obras escritas por mulheres, uma preferência que não era premeditada. No processo de amadurecimento que a adolescência representou para mim, ler mulheres fazia parte de um movimento de identificação. Na maioria das vezes, as obras diziam exatamente aquilo que eu, com o coração e a cabeça fervilhando, não conseguia dizer.

Passada essa fase, percebo que deixei as escritoras de lado e não sei explicar o motivo. Simplesmente outras leituras me enfeitiçaram e eu atendi ao chamado. Recentemente, comecei a sentir uma necessidade de retomar a leitura de mulheres, porque eu, enquanto mulher, percebo a inspiração e a motivação que essas autoras provocam em mim. 

Então escolhi Ursula Le Guin e seu clássico “A mão esquerda da escuridão” para serem minhas inspirações nesse momento. Ursula é uma escritora de fantasia e ficção científica nascida nos Estados Unidos, em 1929. Ela publicou “A mão esquerda” em 1969 e, com ele, ganhou prêmios como o Hugo e Nebula. Entre as influências de Ursula estão escritores como Tolkien e Philip K. Dick


Ursula Le Guin, que atualmente está com 86 anos.


Em “A mão esquerda da escuridão”, Ursula conta a saga de Genly Ai, um emissário terráqueo da federação galática Ekumen, que chega ao Planeta Gethen (também chamado de Planeta Inverno) com a missão de convencer as autoridades do local a unirem-se ao Ekumen. Genly Ai tem uma missão política e, para dar conta dela, contará com o apoio de alguns personagens importantes no panorama político de Gethen.

Um desses personagens é Therem Harth rem ir Estraven, ex-primeiro-ministro em Karhide, uma das nações de Gethen. Estraven é banido de sua nação e perde sua autoridade diante da acusação de traição. Ele teria recomendado, “sob pretexto de real serviço ao rei (Argaven), que a Nação-Domínio de Karhide abrisse mão de sua soberania e abdicasse de seu poder para tornar-se uma nação inferior, súdita de uma certa União dos Povos (Ekumen)”.


Diante do exílio de Estraven, o emissário Genly Ai busca apoio para sua missão em outra nação, Orgoreyn, vizinha e rival de Karhide. Embora seja muito bem recebido pelos orgotas, Genly Ai torna-se vítima de uma conspiração que pode levar seus planos ao fracasso. Então ele percebe que deve voltar a Karhide. 






A partir dessa trama política, Le Guin faz um primoroso trabalho de descrição das brancas e solitárias paisagens de Inverno, além do brilhante processo de construção psicológica dos personagens, especialmente Genly Ai e Estraven, entre os quais nasce uma forte amizade. Esse poder de descrição da autora pode ser percebido em trechos como: 


“No crepúsculo do quarto dia de viagem a partir de Erhenrang, chegamos a Rer. Separam essas duas cidades quase mil e oitocentos quilômetros, um paredão montanhoso de milhares de metros de altura e dois ou três mil anos. A caravana parou do lado externo do Portal Oeste, onde seria movida para barcaças de canal. Nenhum barco terrestre ou carro pode entrar em Rer. (…) Não existem ruas em Rer. Há passeios cobertos, semelhantes a túneis, que no verão podem ser atravessados por dentro ou por cima, como se queira. As casas, ilhas e Lares espalham-se desordenadamente, caóticos, em uma confusão profusa e prodigiosa que subitamente culmina em esplendor”.

Com a história de Genly Ai e de sua saga no planeta Inverno, Ursula desenvolve uma de suas principais características, que é justamente mostrar o estranhamento e o processo de aceitação pelo qual o emissário terráqueo é submetido ao chegar a um planeta com costumes e realidades tão diferentes dos seus. Assim, a autora trabalha questões sociológicas, antropológicas e psicológicas relacionadas ao processo de interação entre culturas tão distintas.


Uma das principais diferenças apresentadas pelos gethenianos em relação aos terráqueos é a questão  do sexo. Em Gethen, todas as pessoas têm gênero indeterminado e podem, em certos momentos, assumir o gênero masculino ou o gênero feminino. Como isso funciona, prefiro deixar a própria Le Guin explicar:



“O ciclo sexual dura, em média, de 26 a 28 dias (…) e, no 22º ou 23º dia, o indivíduo entra no kemmer, o cio. Nesta primeira fase do kemmer, ele permanece completamente andrógino. (…) Quando o indivíduo encontra um parceiro no kemmer, a secreção hormonal recebe novo estímulo até que, num dos parceiros, ocorra a dominância hormonal masculina ou feminina. Os órgãos genitais crescem ou encolhem, conforme o caso, as preliminares se intensificam e o outro parceiro, provocado pela mudança, assume o papel sexual oposto”.

A partir do kemmer, se o indivíduo que estava no papel feminino engravidar, segue a atividade hormonal de forma que, durante a gestação, ele permanecerá feminino. Após o nascimento do filho, o indivíduo retorna ao somer, o estado original, andrógino.


Com todo seu poder criativo, a escritora mexe com nossas crenças e percepções, sem a intenção de lançar alguma proposta futurista, afinal, como ela mesma ressalta: “A ficção científica não prevê; descreve. Previsões são feitas por profetas (de graça); por videntes (que geralmente cobram um honorário e, portanto, são mais respeitados em sua época do que os profetas); e por futurólogos (assalariados). Previsões são o trabalho de profetas, videntes e futurólogos. Não são o trabalho de romancistas. O trabalho do romancista é mentir”.


Nesse contexto, Ursula mente muito bem!




Obs.: as principais obras de Le Guin são divididas em dois ciclos: Terramar e Hainish. "A mão esquerda da escuridão" é uma das sete obras que integram o ciclo Hainish.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O que faz você se sentir vivo?


Olho o relógio. São 13 horas e 30 minutos. O coração bate acelerado, as gotas de suor escorrem pelo corpo, enquanto me esforço para concluir mais uma série de exercícios na academia. As pernas reclamam, mandam sinais de que vão parar, de que não aguentam mais, mas, em pensamento, repito: falta pouco, não pode parar agora! Falta pouco, não pode parar agora! E assim sigo, tentando não pensar nas razões para desistir.

Série concluída, deito no colchonete para encarar mais alguns abdominais. São os últimos do dia. Após vencê-los, restará a esteira e depois o caminho de casa. Finalizo os abdominais e deixo o corpo relaxar, tomado pela exaustão. Olhos fechados, busco me concentrar na respiração. Ali, deitada sobre o colchonete, percebo o coração batendo forte, acelerado, mostrando que a vida está em mim.

No caminho de casa, enquanto dirijo, aproveito para fazer reflexões. Às vezes prefiro ouvir música ao volante, outras vezes prefiro usar esses momentos para pensar na vida, nas experiências, nas decisões que preciso tomar, em coisas que posso melhorar. No caminho, lembro dos momentos na academia, do coração querendo saltar do peito e do sentimento de alegria por estar viva.

Então começo a pensar em outras situações que trazem esse sentimento, essa potência de vida. Uma viagem, um livro, aquela música, o passeio de bicicleta com o vento no rosto, um bolo para receber os amigos, a busca pelo conhecimento, as mãos entrelaçadas, o trabalho finalizado, poemas, telefonemas, olhares, abraços.

Os motivos podem ser diversos, para todos os gostos e bolsos, afinal, dinheiro não é garantia de realização. O que importa, de verdade, é sentir esse pulsar que nasce no peito e nos leva a seguir em busca do novo, do que realmente vai valer a pena. Mas a vida anda tão corrida, são tantos compromissos, como priorizar esses momentos motivadores?

Chego em casa e procuro minha agenda para confirmar o horário de uma consulta médica. Ela está repleta de compromissos firmados no automático, alguns deles por obrigação, por não saber dizer não. Isso é um reflexo. Simbolicamente, decido deixar essa agenda de lado e comprar uma nova. Nas páginas em branco, a oportunidade de recomeçar, de transformar e priorizar os momentos em que me sinto viva e não apenas levando a vida.







segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Educação salva!


O nome deste texto é inspirado em um pensamento que me acompanha e que estava ainda mais forte no momento em que deixei a sala de cinema após assistir "Tudo que aprendemos juntos". O filme, que está em exibição pelo país desde o dia 03 de dezembro, cumpre o importante papel de utilizar a arte para provocar importantes reflexões. As situações retratadas na tela mostram uma realidade que todos nós precisamos ver.

Lázaro Ramos interpreta Laerte, um violinista que enfrenta uma situação de crise (interior e financeira) após ser reprovado em um exame para tocar na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Por necessidade, ele decide aceitar o desafio de ensinar música para jovens de uma escola da periferia. 


Imagem: Tudo que aprendemos juntos (divulgação)

Inserido naquela realidade, Laerte não vê muitas perspectivas de mudança para seus alunos. Em vários momentos, eles se mostram arredios, sem controle e responsáveis por comportamentos reprováveis. As situações vividas por Laerte na escola simbolizam as condições de professores e instituições de ensino espalhadas por todo o Brasil. Diante da falta de estrutura e do próprio contexto social dos jovens, o professor se torna uma figura impotente, tal qual alguém que nada contra a corrente.

"Tudo que aprendemos juntos" é baseado na peça de teatro "Acorda Brasil", escrita pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes. Para escrever a peça, ele se inspirou na história do Instituto Baccarelli, organização social sem fins lucrativos que desde 1996 oferece formação musical e artística para crianças e jovens de Heliópolis, em São Paulo.

No caso de "Tudo que aprendemos juntos", a música é a grande protagonista, uma arma de transformação social que acende nos alunos a esperança de novos dias. Essa esperança é o que move o jovem Samuel, um dos alunos que se destacam no grupo ensinado por Laerte. Para se dedicar à música, ele precisa enfrentar uma série de dificuldades, desde a aceitação da família, que deseja que ele trabalhe para auxiliar financeiramente a casa, até escapar das opções perigosas (e criminosas) que estão ao alcance dele.

Criar boas opções é o caminho. Essa é a mensagem do filme dirigido por Sérgio Machado. Crianças e jovens, especialmente aqueles que residem nas periferias brasileiras, precisam de opções que representem esperança em suas vidas. Essa esperança pode vir da música, de tantas outras formas de arte, do esporte, etc, etc, etc. Mas a melhor maneira de resumir tudo isso se chama educação. Educação salva!

É esse o sentimento que nos abraça e transborda ao assistir "Tudo que aprendemos juntos". Diante disso, outras questões são apenas a cereja do bolo: a bela fotografia, as atuações repletas de sentimento e a trilha sonora que arrepia ao unir o clássico à batida urbana do rap. Ao lado de mestres como Bach e Guerra-Peixe, as rimas de Criolo e Sabotage dão voz a um povo que, cansado de ser coadjuvante, quer (e precisa) ser protagonista.







segunda-feira, 11 de maio de 2015

1Q84 – Livro I: Conhecendo Tengo e Aomame


*Atenção! Este texto contém spoilers.

Minhas primeiras palavras após terminar a leitura do livro I da trilogia 1Q84 foram: “Esse japonês é brilhante e maluco demais!” O japonês em questão é Haruki Murakami, autor da obra, considerado um dos mais importantes escritores da literatura japonesa na atualidade.


Murakami: brilhante e maluco demais!


Quando iniciei a leitura, me perguntei algumas vezes: Onde isso vai parar? E confesso que tive boas surpresas no decorrer da obra. O livro I da trilogia é basicamente uma apresentação dos dois personagens principais: o professor Tengo e a instrutora de artes marciais Aomame. As histórias de ambos se passam no Japão, em 1984.

Aos poucos vamos conhecendo os protagonistas por meio de capítulos intercalados: um capítulo sobre Aomame, outro capítulo sobre Tengo e assim sucessivamente. Nessa estrutura, somos apresentados a duas histórias inicialmente paralelas, que não apresentam relação uma com a outra.

Tengo é um professor de Matemática apaixonado por literatura e pela arte de escrever. Por conta disso, ele já havia participado de alguns concursos literários. Em um desses concursos, conheceu Komatsu, que havia feito carreira como editor de revistas literárias e demonstrara grande interesse pelo que Tengo escrevia.

Certo dia, Komatsu marca um encontro com o professor e faz uma proposta a ele. Ao analisar textos recebidos para um concurso literário da revista da qual era editor, Komatsu foi surpreendido por uma obra com história nada convencional. Chamado “Crisálida de ar”, o texto se tornava ainda mais interessante por ter sido escrito por Fukaeri, uma misteriosa garota de apenas 17 anos, que deixa Tengo encantado por sua beleza e simplicidade.

Mas a obra, por mais intrigante que parecesse, apresentava muitas imperfeições, inclusive no aspecto gramatical. Para colocar seu plano em ação, Komatsu precisava de Tengo e suas habilidades com a escrita. Por isso, o professor foi convidado pelo amigo editor a reescrever a história, sem alterar seu enredo e toda a originalidade da jovem Fukaeri.

“Crisálida de ar” conta a história “de uma garota de dez anos que vivia numa comuna atípica em meio às montanhas e que cuidava de uma cabra cega. Todas as crianças tinham uma tarefa e a dela era a de cuidar dessa cabra. A criatura, apesar de velha, tinha um significado muito especial para a comunidade e, por isso, era necessário vigiá-la para que não fosse levada por ninguém” (p. 106). Mas um dia a menina se distrai e a cabra morre. Como punição, ela deve ficar dez dias presa num depósito junto com a cabra morta.
“A cabra servia de passagem entre o mundo de cá e o mundo do Povo Pequenino. Ela não sabia se aqueles homens pequeninos eram bons ou maus. (...) Durante a noite, eles vinham para o mundo de cá através do corpo da cabra morta. E, ao amanhecer, voltavam para o mundo de lá. A garota conseguia falar com esses seres pequeninos”. (p. 106)

Mais do que garantir a participação da obra em um concurso de pequena expressão, Komatsu deseja vê-la vencedora de premiações relevantes, como a Akutagawa. Seu objetivo, como ele mesmo descreve em um trecho do livro, é ridicularizar as premiações de literatura.

Para que o plano possa se concretizar, Komatsu conta com o apoio de Tengo, que decide reescrever o texto, assim como da própria Fukaeri e seu tutor, o professor Ebisuno, que concordam com a proposta do editor. Em recompensa, os participantes do plano receberão vultosas quantias referentes à venda de “Crisálida de ar”, que, segundo Komatsu, promete ser um fenômeno da literatura japonesa.

Enquanto isso, 1Q84 narra também a história de Aomame, uma instrutora de artes marciais que desempenha uma função secreta: eliminar homens responsáveis por casos de violência doméstica.


Trilogia 1Q84


As histórias de Tengo e Aomame se conectam quando a instrutora começa a investigar um caso relacionado a uma pequena comunidade chamada Sakigake, da qual o pai de Fukaeri (a autora de Crisálida de ar) era líder. De origem agrícola, Sakigake tornou-se um grupo religioso legalmente estabelecido, que acabou dividindo-se em dois outros grupos: uma facção em prol da luta armada e outra facção contrária.

Indico muito a leitura de 1Q84. Estou animada para conhecer mais desse universo e, a partir da leitura dos próximos livros da trilogia, compreender o que significa esse Povo Pequenino, qual sua relação com Sakigake, onde estão os pais de Fukaeri e como as histórias de Tengo e Aomame irão se aproximar cada vez mais. 

Essa história envolvente mostra o inegável potencial literário e imaginário do seu escritor, um cara que, certamente, irá nos surpreender ainda mais com suas histórias repletas de reviravoltas. 

Obs.: O nome 1Q84 faz referência a 1984, ano em que os fatos ocorrem e título da famosa obra do escritor George Orwell, que serviu de inspiração para Murakami e também é citado na trilogia do japonês. Assim que eu concluir a leitura da trilogia, pretendo analisar mais profundamente a influência do romance distópico de Orwell sobre essa obra de Haruki Murakami.



sábado, 14 de março de 2015

Nocaute, cinco histórias de boxe - Jack London


Recentemente comecei a treinar kickboxing. Até então, não havia praticado nenhuma modalidade de luta e, sinceramente, pensava que era algo incompatível com a minha pessoa. Mas resolvi dar uma chance e o resultado foi melhor do que eu esperava. Simplesmente estou adorando as aulas! E para conhecer mais a respeito dessa e de outras modalidades de luta, fiz algumas pesquisas.

Nesse processo de pesquisa, cheguei a um ponto que muito me interessou: livros e filmes com temática relacionada à prática de lutas e artes marciais. No campo da literatura, um dos autores que "de cara" chamou minha atenção foi o norte-americano Jack London, de quem eu ainda não havia lido nenhuma obra. 

London, que na verdade se chamava John Griffith Chaney, era um apaixonado por boxe e escreveu algumas histórias que fazem referência ao esporte. O livro "Nocaute", publicado pela editora Benvirá, reúne cinco contos que foram publicados na década de 1920, em revistas norte-americanas. São eles: O bife, O jogo, A fera do abismo, O mexicano e O benefício da dúvida.

O livro Nocaute tem ilustrações do brasileiro Kako. Esta se refere ao conto O bife.


O conto é um gênero literário que muito aprecio e sobre o qual pretendo escrever mais vezes neste blog. No caso dos contos apresentados no livro "Nocaute", chamou minha atenção a detalhada descrição das cenas, dos personagens e, como não poderia ser diferente, dos momentos que se passam dentro do ringue. Nesses momentos, o boxe é apresentado também como uma perfeita metáfora da vida, que exige força, estratégia, habilidade e atenção para superar os obstáculos que se apresentam ao lutador.

Dos cinco contos, um dos que mais me impressionou foi O bife, que conta a história de um lutador australiano chamado Tom King. Depois de anos dedicados ao esporte, com uma série de vitórias no currículo, Tom sente o peso da idade e precisa aceitar que sua carreira está em decadência. Além disso, ele também carrega consigo as aflições de marido, pai de dois filhos, que precisa dar conta das necessidades de sua família.

Diante das dificuldades financeiras, que limitam as ambições da família e impedem Tom de comer até mesmo o bife desejado, ele se aventura em uma luta com o jovem neozelandês Sandel. A vitória pode representar dias de alívio, com o pagamento das contas atrasadas e comida na mesa. Mesmo ciente de que não havia treinado o bastante e de que precisava se alimentar melhor, Tom sobe ao ringue com Sandel, numa luta que traz a ele importantes lições e que é descrita de forma primorosa.

É a luta do jovem contra o velho, do vigor físico contra o cansaço, da ansiedade contra a experiência. Nesse embate, Tom se dá conta da naturalidade de determinados acontecimentos da vida e lembra de quando, assim como Sandel, trazia consigo o vigor e disposição da juventude, que o auxiliava a nocautear os adversários.

Ao concluir a leitura de Nocaute, tive a certeza de que não haveria nome melhor para a obra. Me senti realmente nocauteada pelos exemplos de luta e perseverança dos heróis de London, tão destemidos e fortes diante de seus desafios, que incluem, entre outras coisas, a luta contra a corrupção (dentro e fora do boxe) e o engrandecimento da classe trabalhadora, tão presentes em histórias como A fera do abismo e O mexicano.

As histórias de London me incentivaram ainda mais a continuar a prática do kickboxing, como forma de melhorar minha atenção, resistência física e, dessa forma, ter também mais disposição para nocautear as dificuldades que aparecerem pelo caminho.



Capa do livro Nocaute, que reúne contos de Jack London.