terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pequenos novelos de lã.


Os sonhos devem ser um presente de Deus. Rita não tinha dúvida disso, especialmente naquela manhã quente de agosto. Ela acordou ofegante, depois de um sonho longo e colorido. O gosto do chá de maçã ainda estava na boca e o vento cortante do inverno não deixava seus cabelos em paz. "Parecia tão real", pensou Rita, certa de que aquele não era um sonho qualquer. Era uma viagem ao passado.
De repente, estava na casa da avó, uma casa multicolorida e aconchegante. Da janela da sala de jantar dava para ver os pássaros brincarem na grama do quintal. O cheiro de maçã se espalhava pelo ar. "Vovó deve estar preparando um chá". Não via a hora de abraçar a avó, olhar bem dentro daqueles olhos verdes que só falavam de paz, tirar os sapatos e escutar o estalar do chão de madeira.
"Rita, traga os meus pequenos novelos de lã", disse uma voz distante. Mas de onde vinha aquela voz? Onde estariam os tais novelos? Não os encontrou, embora tenha procurado em todos os cantos. Não havia novelos, assim como não havia mais avó. Mas o sonho era tão real. Belo presente de Deus.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Lições do grande chefe.


Conheci o trabalho do escritor Daniel Munduruku em 2007, quando li a obra "Parece que foi ontem". No último dia 09, tive o prazer de vê-lo pessoalmente durante a Feira do Livro Indígena de Mato Grosso (FLIMT). Daniel esteve em Cuiabá para lançar o livro "A palavra do grande chefe", uma adaptação do famoso depoimento histórico conhecido como "A carta do chefe Seattle".
"A palavra do grande chefe" é fruto da parceria entre Daniel e o ilustrador Maurício Negro. Juntos, eles têm encantado crianças e jovens com histórias e imagens inspiradas na cultura indígena. Durante o lançamento eles disseram que a parceria ainda promete outras surpresas. Daniel fez uma "leitura comentada" da obra e provocou importantes momentos de reflexão ao emprestar sua voz para dar vida à mensagem do chefe Seattle.

Maurício Negro e Daniel Munduruku na FLIMT.

A carta do Chefe Seattle

Era 1855 e o governo americano desejava comprar uma parte das terras que pertenciam à tribo Suquamish. Diante da proposta, o cacique Seattle escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce. Eis um trecho da carta:
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda essa terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados na tradição e na crença do meu povo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A cidade ilhada de Hatoum



Apesar da fama internacional, muitos brasileiros desconhecem o trabalho do escritor Milton Hatoum. Nascido em Manaus, no coração da Amazônia, ele aprendeu desde pequeno a admirar a cultura de um povo que venera o rio e a floresta. Tanto encantamento pode ser encontrado nas páginas de seu mais novo livro, A cidade ilhada, primeira coletânea de contos e quinto livro do autor.
Obsessão ou não, a verdade é que as ruas e cores de Manaus estão marcadas nas obras de Hatoum. Por esta característica, ele é constantemente chamado regionalista, o que está longe de ser para ele um incômodo. Com personagens fortes, marcantes e psicologicamente bem construídos, “A cidade ilhada” reúne quatorze histórias que vão além de Manaus e foram “desenhadas” pela complexidade simples que acompanha os bons escritores.
Entre os casos contados pelo escritor em seu novo livro, alguns detalham as lembranças de um narrador que volta para a cidade de sua infância e percebe pelas esquinas e casas os vestígios de situações que um dia viveu. Como em “Varandas da Eva”, que mostra toda a expectativa de um jovem que vai pela primeira vez a um bordel e conhece uma mulher misteriosa. Recordações da infância também afloram em “Dois tempos”, com a companhia de um tio desengonçado e aulas de canto com a pianista mais famosa da cidade.
Mas o que seria de um livro de contos sem uma boa dose de loucura e suspense? Não teria graça alguma. E Hatoum utiliza esses dois elementos com sabedoria em histórias como “O adeus do comandante”, “Bárbara no inverno” e “A casa ilhada”. O último narra a saga de vingança do cientista Lavedan, transtornado por um caso de traição.
Vingança, amor e loucura se encontram também em “Bárbara no inverno”, com direito a final trágico para o relacionamento amoroso de Lázaro e Bárbara, dois brasileiros que escolheram a França como refúgio no período em que o Brasil era controlado pela ditadura militar.
Os trabalhos anteriores de Milton Hatoum foram muito elogiados pela imprensa nacional e internacional. No Brasil, ele acumula três prêmios Jabuti de melhor romance pelas obras Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte. Um dos fortes de Milton é, sem dúvida, a rica construção dos personagens e a densa descrição dos ambientes. Essas características podem ser notadas em “A Cidade Ilhada”.
Não deve demorar para que o trabalho de Hatoum chegue à televisão. O Projeto Quadrante, do diretor Luiz Fernando Carvalho, pretende transformar o livro Dois irmãos em mais uma minissérie da Rede Globo. Foi Carvalho quem dirigiu as minisséries Os maias, A pedra do reino, Hoje é dia de Maria e Capitu.
Ainda não se podem prever as conseqüências de uma adaptação como essa para a carreira literária de Hatoum, mas uma coisa é certa: será uma oportunidade para que o grande público brasileiro conheça a pena sagaz e certeira do escritor amazonense.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Viva o novo!

Essa minha paixão por música fez de mim uma verdadeira "caça-novidades". Estou sempre em busca de bandas novas e novos cantores, sem nunca abandonar os "clássicos", logicamente. Ainda bem que a música brasileira nunca nos deixa na mão e volta e meia nos presenteia com gratas novidades. A voz de Ana Canãs é uma delas.
Até pensei em escrever um monte de coisas sobre ela, mas acredito que ouví-la já diz tudo.


Ana Cañas também está no CD Drês, o álbum mais recente de Nando Reis. Ao lado do ruivo, ela canta "Pra você guardei o amor". Linda música, lindo CD.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A crise da água e a luta contra o desperdício - Terceira parte



Ações inovadoras

Larissa Cavalcante

O casal Josita Correto da Rocha Priante e Nicolau Priante Filho não esperava que uma iniciativa nascida no quintal de casa fosse ganhar tanta repercussão. Tudo começou em 1997, a partir de uma observação de Josita. Sempre que lavava roupas, a família sofria com a falta d’água. Um dia, ela teve a ideia de abolir o sistema convencional de descarga e utilizar a água da máquina de lavar para este fim. Antes de usar o banheiro, era necessário encher um balde com a água que ficava armazenada em uma caixa.
A iniciativa não foi bem aceita pelos filhos do casal, que na época eram adolescentes. Nicolau conta que os filhos tinham vergonha de levar os amigos em casa. Para resolver o problema, Josita deu uma missão ao marido: como físico, ele deveria pensar uma maneira mais prática para o reuso que, de fato, precisava ser aprimorado. Imagine o que acontecia em dias de festa, quando a casa ficava cheia de gente.
Por meio de um sonho, Nicolau teve uma ideia para o projeto. O banheiro ganharia duas caixas de descarga, uma ficaria ligada ao reservatório com água tratada e outra ao reservatório com água de reuso. Após usar o sanitário, a pessoa só puxaria a descarga convencional se, por um acaso, a de reuso estivesse vazia. Foi isso o que Nicolau fez. Mesmo assim, ainda havia muito para melhorar.
Foi então que o casal Priante decidiu institucionalizar o projeto. Nicolau apresentou o sistema de reuso ao Departamento de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), do qual era professor. O departamento decidiu formalizar o projeto e trabalhar pelo seu aprimoramento. Para residências que utilizam máquinas automáticas, uma das dificuldades era como separar a água da lavagem, mais suja, da água do enxágue.
Para isso, a UFMT desenvolveu um dispositivo eletrônico que, adaptado à máquina, faz com que ela separe as águas do processo de lavagem automaticamente. A primeira água da lavagem é usada para molhar as plantas, enquanto a água do enxágue é armazenada e encaminhada para a descarga. Esse cuidado precisa ser tomado para evitar a contaminação da água.
A tecnologia que nasceu no quintal dos Priante foi finalista do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social de 2005 e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) para instalação do sistema em dez casas no bairro Parque Cuiabá, na capital do estado. “Nunca imaginei que teria esse resultado. Tudo nasceu de uma simples observação. Quando lavava roupa, faltava água para tomar banho”, conta Josita.
O projeto incentivou dona Josita a pesquisar os índices de consumo das descargas e das máquinas de lavar. Para se ter uma ideia, uma máquina automática de 8 kg gasta 210 litros de água por lavagem. E a cada vez que alguém puxa a descarga, dez litros de água são utilizados. É preciso considerar que um adulto usa o banheiro, em média, cinco vezes ao dia. Esses números apresentam uma noção da quantidade de água gasta todos os dias em atitudes corriqueiras.
Segundo Nicolau Priante, a participação da Universidade foi fundamental para o aprimoramento e divulgação do sistema de reuso. “A academia desempenha uma função muito importante no desenvolvimento de soluções para os problemas da sociedade”, disse. Para Nicolau, independente da área de atuação, é preciso que a academia tenha a postura cidadã de trabalhar pela sociedade.

Casal Priante: criatividade para combater o desperdício de água

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Quando os zumbis invadirem a Terra...


Este não é o título de um conto de ficção científica. Aliás, foi-se o tempo em que os escritos de autores como Arthur C. Clarke ou Asimov pareciam coisa de outro mundo. Aquilo que só existia na ficção está cada vez mais presente em nosso cotidiano. A começar pelos zumbis. Comecei a pensar nisso depois que li, hoje, uma notícia no site BBC Brasil: Matemáticos calculam possibilidade de humanidade sobreviver a "ataque de zumbis". Um grupo de cientistas canadenses realizou um estudo para saber as chances de sairmos vitoriosos diante de um ataque que (até hoje) só existe nas telas do cinema e nas páginas dos livros. Ah! E nos vídeo clipes também.

'Cause this is thriller, thriller night...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A crise da água e a luta contra o desperdício - Segunda parte


A lição começa em casa

Larissa Cavalcante

As possíveis deficiências das redes de abastecimento não são as únicas responsáveis pelo desperdício de água. Os hábitos das famílias em suas residências desempenham papel fundamental nesta questão. Não faz muito tempo que as pessoas começaram a perceber que a água não é um recurso infinito. E mesmo com tantas campanhas de educação, há quem nunca tenha parado para pensar nisso.

De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a falta d’água é uma crise para os pobres. O documento afirma que as famílias ricas gastam muito mais água que as carentes e, no entanto, pagam menos por ela.

“Duas em cada três pessoas sem acesso a água potável sobrevivem com menos de 2 dólares por dia. (...) Em muitos países, a distribuição do acesso adequado à água e saneamento refletem a distribuição da riqueza. (...) As pessoas que vivem nos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Nairóbi (Quênia) pagam 5 a 10 vezes mais por água do que as que vivem nas zonas ricas destas mesmas cidades e mais do que pagam os consumidores em Londres ou Nova York.” (Relatório de Desenvolvimento Humano, 2006)
Preocupadas em sensibilizar a população para a economia da água, algumas ONGs têm investido em campanhas e incentivado a adoção de novos hábitos. É o caso dos programas “Água para a vida”, desenvolvido desde 2001 pela ONG WWF Brasil, e “De olho nos mananciais”, do Instituto Socioambiental. Além de atuarem diretamente como colaboradoras do Plano Nacional de Recursos Hídricos, estas organizações também divulgam e incentivam atitudes sustentáveis e buscam conscientizar a população para o uso responsável da água.

A ONG WWF, por exemplo, divulga cartilhas com alternativas para reduzir o consumo da água, como consertar torneiras, substituir a mangueira pelo regador na hora de molhar as plantas, instalar calhas para armazenar a água da chuva, fechar o chuveiro enquanto se ensaboa. Estas ações podem contribuir para que cada pessoa consuma menos de 110 litros de água por dia, meta estabelecida pelas Nações Unidas.



Campanha Água para todos, água para a vida (WWF Brasil)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A crise da água e a luta contra o desperdício - Primeira Parte



Cuiabá está entre as capitais brasileiras que mais jogam água fora. Combater o desperdício de água se tornou uma necessidade para garantir a vida no planeta.

Larissa Cavalcante


As previsões não são animadoras. Segundo a ONU, mesmo que todas as metas de desenvolvimento sejam atingidas, continuarão a existir mais de 800 milhões de pessoas sem água em 2015. Esta parcela significativa da população mundial não terá ao menos 20 litros de água potável por dia para satisfazer suas necessidades. Diante deste quadro, o combate ao desperdício se tornou fundamental para garantir qualidade de vida no futuro.

Muitos litros d’água se perdem antes mesmo de chegar às torneiras. De acordo com um estudo realizado em 2007 pela ONG Instituto Socioambiental (ISA), Cuiabá ocupa a sexta posição entre as capitais brasileiras que mais desperdiçam água. Dos mananciais às torneiras, a perda chega a 65,4%, o que corresponde a 144 mil litros em um dia.




O estudo também aponta as principais causas do desperdício: vazamentos, submedições e fraudes. Estes fatores fazem com que o Brasil seja um dos países que mais joga água limpa fora, mais de 6 bilhões de litros todos os dias. A pesquisa do ISA foi desenvolvida com base em dados de 2004, fornecidos pelas concessionárias que prestam serviços para o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades.

Até 1998, os serviços de saneamento básico no Estado eram desempenhados pela Companhia de Saneamento do Estado de Mato Grosso - Sanemat. Quando esta empresa estatal foi fechada, os serviços de saneamento passaram às mãos dos municípios. De acordo com o superintendente de recursos hídricos da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Luiz Henrique Magalhães Noquelli, estipular o índice de desperdício no estado não é uma tarefa fácil, porque exige uma pesquisa aprofundada em cada cidade.

Noquelli acredita que o desperdício de água nas capitais tenha diminuído, por causa das ações do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. Lançado em 2007, o programa vai investir mais de R$ 500 bilhões em infra-estrutura, o que inclui os serviços de saneamento e recursos hídricos. O PAC prevê investimento total de quase R$ 250 milhões para Cuiabá, sendo que R$ 120 milhões devem ser aplicados em saneamento básico: abastecimento de água, tratamento de esgoto e habitação.

O governo federal criou em 2000 a Agência Nacional de Águas (ANA), para implementar uma política nacional de recursos hídricos. Esta política foi instituída pela lei nº 9.433, de 1997. Neste mesmo ano, Mato Grosso criou o Plano Estadual de Recursos Hídricos, um instrumento para gestão da água no Estado. Um dos objetivos do plano é a criação de projetos para proteção, recuperação e gerenciamento dos recursos hídricos.

O Plano Estadual pretende possibilitar uma gestão participativa e descentralizada, que permita o envolvimento da sociedade. As pessoas podem criar os chamados Comitês de Bacia, para participar das decisões e acompanhar de perto o destino da água que sai dos rios.

Segundo Noquelli, a criação dos comitês ainda é um projeto incipiente em Mato Grosso. Ele explica que, legalmente, a Sema não pode criar os comitês, apenas fomentá-los. Portanto, eles devem nascer da vontade da população. “A mobilização ainda é pequena. Por enquanto, só existe um comitê no estado. Os problemas de falta d’água no estado são raros, por isso, tem sido mais difícil chamar a atenção das pessoas”, disse o superintendente.

Fica em Primavera do Leste o único comitê do Estado, que articula ações para proteger a bacia do Tocantins-Araguaia. O grupo se formou devido a um conflito pelo uso dos recursos hídricos na região. Algumas pessoas enfrentavam problemas de falta d’água por causa do volume utilizado para irrigar as plantações de soja e algodão. A população resolveu unir esforços para solucionar a questão. E conseguiu. Foram estipulados, inclusive, horários de uso para cada agricultor.

domingo, 5 de julho de 2009

Esperanza.


Esperanza Spalding é daquelas cantoras que dá gosto conhecer. Até porque ela não é apenas uma cantora, mas uma musicista de primeira. A cantora norte-americana é hoje uma das grandes revelações do Jazz.
Fiquei impressionada com Esperanza desde a primeira vez que a ouvi. A voz precisa, o jeito super estiloso e os dedos correndo com rapidez pelo contrabaixo. Mas o encantamento se tornou incontestável quando ouvi a versão dela para a música Ponta de Areia, de Milton Nascimento.
A música consegue ir lá no fundo, despertar sentimentos inexplicáveis. E as canções de Esperanza me deixam sempre um pouco nostálgica, porque me fazem lembrar Aretha, Etta, Nina...
Para conhecer Esperanza Spalding vale a pena acessar a página dela no MySpace.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Nos caminhos do Yôga


O mundo está acostumado à lógica da substituição. Diariamente, o antigo dá lugar ao novo. Mas, em determinados momentos históricos, o homem resolve buscar no passado as soluções para problemas da atualidade. Prova disso é a expansão do Yôga, filosofia indiana que pretende levar o homem a um estado de hiperconsciência e autoconhecimento. Este objetivo pode ser alcançado por meio de práticas que trabalham do movimento das mãos à meditação.
Não é difícil entender porque a prática do Yôga se disseminou com tanta rapidez. Com a Revolução Industrial, as cidades cresceram, a poluição aumentou e a qualidade de vida da população diminuiu. As pessoas passaram a alimentar-se mal e a praticar menos exercícios físicos. Foi na década de 1960, graças ao movimento Hippie, que o Ocidente voltou o seu olhar para a cultura oriental.
De acordo com o instrutor de Yôga Jacques Felix Trindade, muitas pessoas têm procurado esta prática por orientação médica, em busca de cura para seus males, principalmente, ansiedade, dores na coluna, problemas respiratórios e psicológicos. Mas o instrutor alerta: “Controle emocional e boa saúde são conseqüências do Yôga, mas seu objetivo é outro”.
Jacques explica que o Yôga pretende despertar a kundaliní, uma energia especial que se encontra adormecida na base da coluna e é capaz de ativar os pólos energéticos do corpo, ou seja, os chakras. Com isso, a pessoa entra em um estado avançado de consciência, torna-se mais resistente às energias externas e passa a conhecer cada vez mais sobre si mesma. Para Jacques, estas características mostram que o Yôga é muito mais que uma terapia.
A estudante Laís Costa, 21, pratica Yôga há quatro anos. Ela diz que se identificou desde o começo, especialmente por causa de sua admiração pela cultura indiana. Além de melhorar a respiração e aliviar o estresse, o Yôga também mudou os hábitos alimentares da estudante. “Percebi que poderia substituir a proteína de origem animal por proteína de soja e passei a dar maior valor às verduras e legumes”, conta.
Entre as diferentes linhas do Yôga, a maioria não estabelece restrições alimentares aos praticantes. Eles são livres para decidir o que comer. Mas o instrutor Jacques explica que, com o tempo, o indivíduo torna-se mais sereno e diminui seu “apetite voraz e desenfreado”. A prática do Yôga também desperta a consciência do indivíduo para a importância de uma alimentação saudável.

Veja também:





terça-feira, 5 de maio de 2009

Alma errada.



Há coisas que a minha alma, já tão mortificada, não
[admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de
[virgindades...
E quando minha alma estraçalhada a todo instante
[pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos
[bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até
que minha pobre alma fora destinada ao habitante
[de outro mundo)
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes
[paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido...

Mário Quintana

=> Pequena homenagem ao grande Quintana, que partiu a 15 anos.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Relato de um certo encontro.

"Mais do que o rio, uma impossibilidade que vinha de não sei onde detinha-me ao pensar na travessia, na outra margem".
(Milton Hatoum)

Não espere de mim a mesma perfeição de Hatoum para descrever os encantos amazônicos. Embora tenha nascido em Manaus, morei na cidade até os meus quatro meses de vida. Ao contrário do escritor Milton Hatoum, que desvendou as mais escondidas ruas e desenhou o homem do norte em seus textos, enxergo o Amazonas com os olhos da fascinação turística, com a mesma faceirice da criança que acaba de abrir o aguardado presente.
Estive em Manaus no início deste ano. O período que passei por lá aumentou ainda mais o meu interesse pela cultura de um povo que venera o rio e a floresta. Mais incrível ainda foi a experiência de estar em um barco cercado pelas águas do rio Amazonas. Impossível esconder a expectativa quando se está prestes a desvendar alguns dos tantos segredos escondidos entre as árvores gigantescas.
As descobertas vão muito além das plantas e animais exóticos. É, antes de tudo, uma oportunidade única para refletir sobre a vida e conectar as forças divinas da natureza com o divino que vive em nós.

Hatoum

Conhecer as obras de Milton Hatoum foi uma das boas surpresas da viagem. Os personagens criados pelo escritor são enriquecidos pela cuidadosa descrição psicológica. Hatoum nasceu em Manaus, em 1952, e é descendente de libaneses. Foi professor de Literatura da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Estreiou em 1989 com o livro Relato de um certo Oriente, seguido de Dois Irmãos, ambos ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance e publicados em oito países. Por Cinzas do Norte recebeu seu terceiro Jabuti, além dos prêmios Bravo!, APCA e Portugal Telecom de Literatura em 2006. Seu romance mais recente é Órfãos do Eldorado, que já teve seus direitos vendidos para treze países.
Confira uma entrevista de Milton Hatoum para a revista Bravo!.


Foto:
Encontro das Águas (Larissa Campos).

domingo, 5 de abril de 2009

Watchmen, o filme: Impressões.


O filme Watchmen chegou aos cinemas no dia 06 de março deste ano. Meu plano "A" era assistir o filme na sessão de pré-estreia, mas o excesso de compromissos arruinou os meus planos. Já meio descontente, só fui conferir o longa do diretor Zack Snyder no dia 17 de março. Desejei escrever sobre ele imediatamente, no entanto, preciso confessar: saí do cinema sem um idéia certa sobre Watchmen, com a necessidade de pensar melhor em tudo o que tinha assistido. De cara, uma coisa eu já sabia: não seria nada fácil adaptar para as telonas uma história em quadrinhos tão complexa.
A minha expectativa era grande porque já tinha lido a obra escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons. Acredito que no contexto cinematográfico atual, ninguém além de Zack Snyder poderia "peitar" um desafio como este. E desde o começo confiei bastante no talento do diretor, que ficou conhecido por dirigir outra adaptação de um clássico dos quadrinhos, "300", de Frank Miller. A complexidade filosófica de Watchmen e a sobreposição de histórias seriam, certamente, um desafio para qualquer pessoa que decidisse adaptar a HQ.
O filme tem começo, meio e fim bastante nítidos, é "redondo" e compreensível para aqueles que não tiveram contato com a obra literária. Mas, como é de se esperar em uma adaptação, muitas coisas ficaram de fora e outras foram modificadas para caber nos padrões de uma produção de massa. No filme, Rorschach passa, gradativamente, de personagem central à coadjuvante, ofuscado pelo brilho excessivo do Dr. Manhattan e do casal Daniel e Laurie. Para não complicar, Snyder preferiu nem fazer referência aos "Contos do cargueiro negro", uma das histórias paralelas de Watchmen. Esta foi a atitude mais acertada do diretor, caso contrário, a qualidade do filme ficaria ainda mais comprometida ou, quem sabe, ele nem chegaria aos cinemas.

Daniel e Laurie nos cinemas: explorar o romance para atrair o público

Mais do que assistir o filme, vale muito a pena ler os 12 volumes de Watchmen. Eles foram publicados pela editora DC Comics entre 1986 e 1987 e permitem ricas reflexões sobre o contexto histórico e social vivido naquela época. Watchmen retrata o clima de insegurança que marcou o período da Guerra Fria e, de certa forma, se estendeu aos dias de hoje. A ação ineficiente do Estado no combate à violência leva ao surgimento de grupos de heróis que tomam para si a tarefa de defender a sociedade. Depois de algum tempo, a ação desses vigilantes é colocada em "xeque" pela população, que não se cansa de perguntar: "Quem vigia os vigilantes?". A hostilização dos mascarados deixa o caminho livre para os planos de Adrian Veidt, um bandido com intenções de mocinho.
O terceiro volume da série, intitulado O juiz de toda Terra, é um dos meus preferidos. Nele, os diálogos trazem críticas à indústria da informação e à postura das pessoas diante daquilo que chega às bancas ou à tela da TV. Neste capítulo, o jornaleiro, que aparece várias vezes no decorrer da história, diz: "Sabe, eu leio tudo quanto é primeira página. Eu absorvo informação, não perco nada". Este mesmo jornaleiro diz, pouco antes, que é bem informado. Em meio a um verdadeiro bombardeamento de informações, quem realmente está bem informado?
Quem estiver interessado em conhecer mais sobre as obras pode clicar aqui e baixar os 12 volumes da série. Ler as criações de Alan Moore é um exercício de reflexão e criticidade, além de ser uma aula sobre roteiros que impressionam e, definitivamente, "amarram" o leitor. Um dos pontos fortes da narrativa de Moore em Watchmen é o detalhamento da estrutura psicológica dos personagens, especialmente de Rorschach. Essa estrutura foi muito bem captada pelo ator Jackie Earle Haley, a personificação de Rorschach nas telonas. O ator foi responsável, sem dúvida, pela melhor atuação do filme.

Rorschach: quando a máscara se transforma em rosto

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Doses diárias de emoção.


Não posso negar. Minha alma aventureira precisa de doses diárias de emoção. Isso não é fácil, porque com tantas responsabilidades no cotidiano, não temos muitas oportunidades para desenvolver a emoção. Diante de tudo isso, como endurecer sem jamais perder a ternura? A exaltação das coisas complexas nos levou para longe da simplicidade, para longe de nós mesmos. Há muita gente por aí que discute os avanços tecnológicos ou as teorias pós-modernas todos os dias, mas não dedica dez minutos de conversa mais íntima com outro ser humano. Digo "mais íntima" porque o mundo está cheio de superficialidades, de relações que ficam apenas no "bom dia". A emoção adormeceu e precisa ser despertada logo. Acorda, emoção!
Para mim, ouvir música é uma maneira de despertar as emoções mais escondidas. Lembro-me da primeira vez que escutei "Diariamente", doce canção de Nando Reis, gravada por Marisa Monte no cd Mais. Minha primeira reação foi de surpresa: "Como alguém consegue escrever algo tão simples e tão poético?". "Diariamente" me emociona, porque mostra a grandeza dos pequenos atos e das pequenas coisas. Essas idéias merecem (MUITO) ser compartilhadas.


quinta-feira, 26 de março de 2009

Depois de Stella.


Seu nome era Stella. Já nem sei por onde anda, tanto tempo faz que não tenho notícias suas. A imagem dela continua clara em minha memória, prova viva e definitiva de como bons professores podem transformar o futuro das crianças.
Eu cursava a sexta série quando me encantei pela maneira apaixonada como a professora Stella dava suas aulas de Língua Portuguesa. Além das noções de gramática e interpretação de texto, nós éramos intensamente incentivados a colocar nossas idéias no papel. E o mais incrível: ela lia com empolgação aquelas idéias, por mais malucas e desconexas que parecessem. Corrigia as falhas, os erros de construção e nos dava ânimo para continuar.
Lembro-me do dia em que ela sentou ao meu lado durante um intervalo e leu em voz alta, só para mim, uma crônica que eu mesma havia escrito e que ela dizia ser sua preferida. O texto era bastante modesto, com frases simples e falava sobre um espetáculo circense. Ao terminar a leitura, com os olhos a transbordar satisfação, Stella sentenciou: "Você daria uma ótima jornalista". Essas palavras ficaram guardadas comigo, me incentivaram a fazer do texto um saboroso ofício.
E as mudanças não aconteceram apenas comigo. Em pouco tempo, muitas crianças, inclusive as mais resistentes, haviam se rendido às aulas mágicas de Stella, às histórias que ela contava, às músicas que cantarolava e aos livros que sempre levava para a sala de aula. Impressionante foi ver o Pedro, que tinha pavor à leitura, com um Carlos Drummond pra cima e pra baixo. A Ana Carla não resistiu ao Sabino e a Bruna decorou vários versos do Vinícius, o poeta que a Stella não cansava de declamar.
Quando a sexta série chegou ao fim eu não me conformei. Desejei estendê-la por mais alguns anos, porque a mudança de escola era certa. Não teve jeito. Mas Stella nunca caiu no esquecimento. Tornou-se parte preciosa da minha história e um parâmetro do que esperar de um bom professor. Aquela mulher, tão simples e tão grandiosa, me ensinou a ver o mundo com esperança. Por causa dela, antes de entrar em qualquer sala de aula, procuro pensar positivo: "Deve haver outras Stellas perdidas por aí".


Stella = Estrela

domingo, 22 de março de 2009

A insânia não é mais a mesma.

"A loucura era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. Começo a suspeitar que é um continente". (Machado de Assis, em O Alienista)


Se falar sozinho fosse sinônimo de loucura não haveria lugar nos hospícios para tanta gente. Atire a primeira pedra quem nunca tagarelou consigo mesmo. Mas se antigamente as pessoas tomavam todo o cuidado na hora de soltar umas palavrinhas, hoje a situação é outra. Tenho visto muitas pessoas conversando sozinhas por aí, em alto e bom som.
A última cena que presenciei aconteceu em um restaurante. Era sábado e eu almoçava com minha família. Enquanto nos divertíamos com a sobremesa e ensaiávamos nossa retirada, um rapaz forte, uns 25 anos, cabeça raspada, que não aparentava nenhum sinal de anormalidade, caminhou até a mesa que ficava ao lado da nossa e nela deixou a sacola de uma loja qualquer. Foi até o buffet e voltou com um super prato. Impossível não reparar.
Mas é lógico que não havia nada de surpreendente até aí. Foi quando olhei para o lado e percebi que entre uma garfada e outra ele conversava sozinho. Mas não era um conversar qualquer. Havia um quê de exaltação na face dele, como se brigasse com alguém. Fiquei um pouco constrangida quando ele percebeu que eu o observava. Por um momento tive a certeza de que ele cantaria para disfarçar. Estava enganada.
Os meus olhos, e os de outras pessoas que a essa altura já espreitavam a cena, não fizeram nenhuma diferença nas atitudes daquele jovem. Simplesmente olhou para a frente e continuou a falar, como se estivesse trancado em seu quarto. Uma das poucas frases que consegui entender foi: "Você pensa que pode me enlouquecer". Cheguei a pensar que aquelas palavras fossem para mim. Meu olhar de censura não tinha nenhum poder sobre ele, era ineficaz.
Quando o prato ficou vazio e não restava motivo algum para continuar ali, o protagonista daquela cena finalmente calou-se. Levantou, pagou a conta e foi embora. Sua face transmitia uma lucidez que poucas vezes cheguei a ver. Enquanto isso, meus pensamentos tentavam, inutilmente, separar loucos e sãos.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Deutsch: Warum nicht?*

*Alemão: Por que não?

Comecei a estudar a língua alemã em janeiro de 2008 e me apaixonei. É comum as pessoas me perguntarem por que decidi aprender este idioma. Semana passada, numa das minhas viagens de ônibus por Cuiabá, uma senhora observou a gramática de alemão no meu colo e comentou: "Deve ser uma língua bem difícil, né?!". Ela não está errada. No fundo, acho que a dificuldade é uma das minhas maiores motivações.
O alemão é uma das línguas indo-européias do grupo dos idiomas germânicos. É falado principalmente na Alemanha, Áustria e Suíça. Para explicar a complexidade desta língua costumo usar um exemplo simples. Enquanto no português "o carro" é sempre "o carro" e "a casa" é sempre "a casa", no alemão os artigos mudam de acordo com os casos gramaticais, que são quatro: nominativo, acusativo, dativo e genitivo. Estas palavras tiram o sono de qualquer estudante do idioma. E tem mais: os substantivos, adjetivos e pronomes sofrem declinações de acordo com cada um dos casos gramaticais citados.
Mas o meu interesse por este idioma singular tem suas raízes na cultura alemã. Tudo começou com Hesse, Goethe, Freud, Nietzsche, Georg Büchner e Schopenhauer. Depois vieram Jung, Weber, Mozart, Wagner, Bach e Beethoven. Sim! Não resisti à música clássica. E ainda há muitos outros nomes da cultura alemã que eu preciso conhecer melhor.


Portão de Brandemburgo, um dos principais monumentos de Berlim.


Uma das maiores empresas de comunicação da Alemanha é a Deutsche Welle, proprietária de emissoras de rádio, televisão e do DW-WORLD, um portal jornalístico online que oferece conteúdo em 30 idiomas. Este site promove um trabalho muito interessante de divulgação da cultura alemã. Nele há, por exemplo, um especial chamado As muitas faces de Beethoven, com informações e materiais sobre o músico, inclusive adaptações do maestro alemão Kurt Masur para as sinfonias 3, 5, 7 e 8. Faço questão de falar desse especial porque Ludwig van Beethoven foi uma das minhas mais gratas descobertas. Enfim, é uma boa oportunidade para os interessados em conhecer verdadeiras obras-primas da música mundial.
Falar sobre Beethoven me fez lembrar a série Peanuts, estrelada por Charlie Brown e Snoopy. O cartunista Charles Schulz, criador da série, era filho de mãe americana e pai alemão. A influência e o gosto pela cultura alemã podem ser percebidas no personagem Schroeder, que toca piano e é obcecado por ninguém mais ninguém menos que Beethoven.

Schroeder: lindo, lindo.


No campo da filosofia, acredito que Arthur Schopenhauer foi inovador. Nascido em 1788, ele introduziu o budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã e influenciou diretamente as obras de Friedrich Nietzsche. A editora L&PM publicou no Brasil um livro chamado "A arte de escrever", que reúne artigos de Schopenhauer sobre o ofício da escrita e a prática da leitura. Esta obra traz opiniões ácidas inclusive sobre o mercado editorial que, para o autor, publica poucas coisas que merecem ser lidas. Se no século XIX já era assim, imaginem nos dias de hoje.
A ficção científica alemã também merece atenção especial. A série Perry Rhodan, por exemplo, começou a ser publicada em 1961 e apresenta em muitos de seus volumes uma metáfora do domínio norte-americana sobre os demais países, especialmente no que diz respeito ao período da Guerra Fria. Escritos por diversos autores, entre eles Clark Darlton, os livros relatam as aventuras de Perry, o administrador e protetor do império solar. Clique aqui para baixar os livros da série. Vale lembrar que também é muito fácil encontrá-los nos sebos, até mesmo nos de Cuiabá.

A terceira potência: um dos volumes publicados no Brasil.


Outra obra-prima alemã é a peça teatral Woyzeck, escrita por Georg Büchner, que viveu entre 1813 e 1837. Isso mesmo. Apenas 24 anos de existência foram suficientes para que ele se tornasse um dos principais nomes do romantismo alemão. Büchner se inspirou em um fato real para escrever a peça: um ex-soldado que foi decapitado em 1824 por ter matado a amante. O escritor alemão decidiu usar o teatro para contar a trajetória de Franz Woyzeck, o ex-soldado.
Esta peça foi uma das minhas portas para a literatura alemã. Como a conheci? Após ler uma matéria (não me lembro onde) sobre Woyzeck desmembrado, peça apresentada em várias cidades brasileiras no ano de 2003 e estrelada por Matheus Nachtergaele. Uma das coisas que mais chamou a minha atenção na adaptação do roteirista Fernando Bonassi foi a idéia de determinar a ordem das cenas por sorteio. Bárbaro, porque fez com que cada apresentação se tornasse uma obra diferente, única. Em Woyzeck desmembrado Franz trabalha em uma olaria chamada Brasil.
No página Site de Literatura, Paulo Avelino resume Woyzeck assim:

"Um menino perde os pais e se torna ajudante de um fabricante de perucas. Não se firma no emprego e para escapar à fome entra para o exército. Passa doze anos pontuados por detenções por indisciplina. É dispensado. Arruma uma amante, que tem outros homens. Desempregado, pede esmolas e dorme ao relento. Um dia, numa crise de ciúmes, mata a amante. É a história de Woyzeck. Um ex-soldado decapitado por ter matado uma mulher. Um laudo referente a sua sanidade foi parar na biblioteca de um certo senhor, cujo filho era estudante de Medicina. O rapaz, Georg, escrevia peças e ficou impressionado com a história".

Os textos e temáticas abordadas por Büchner lembram Bertolt Brecht, escritor alemão contemporâneo.
As versões de Woyzeck em ebook não estão completas, por isso vale mais a pena procurar em bibliotecas ou adquirir um volume. No site Estante Virtual há edições com preços bastante em conta.




Trailer de Woyzeck, o filme (1978): do diretor alemão Werner Herzog.


Depois de tudo isso fica mais fácil compreender por que escolhi o alemão. Também queria ter falado mais sobre Johann Wolfgang Goethe, Hermann Hesse e Bertolt Brecht, mas acho que eles merece um texto especial, só deles.

Vielen Danke! (Muito obrigada!)

domingo, 15 de março de 2009

Nosso céu tem mais estrelas!


O gosto pela leitura é sempre acompanhado por algo de desbravador. Como é prazeroso saborear um novo autor, provar cada uma de suas palavras e, nesse processo enriquecedor, criar uma opinião sobre ele. Melhor ainda é quando o escritor nos arrebata, se torna um amigo íntimo, confidente e provocador.
Ana Miranda é uma dessas "amigas" íntimas. Indicação valiosa, daquelas que não podem ficar guardadas só pra gente. Tudo o que é bom deve fluir, a começar pelos sentimentos. Mas vamos voltar ao verdadeiro assunto deste texto: Ana Miranda.
A escritora nasceu em Fortaleza, em 1951, e já escreveu mais de 12 livros. Um deles é Desmundo, adaptado para o cinema pelo diretor Alain Fresnot. No entanto, meu primeiro contato com o mundo de Ana Miranda se deu com Dias & Dias, em 2006, obra cativante, daquelas que enfeitiçam os olhos e os deixam presos no papel.


Ana

Dias & Dias é o diário da jovem Feliciana. Em suas páginas está um pouco da história de um Maranhão alvoroçado e de um país marcado pelas revoltas do período regencial. Mas o centro da obra é o amor de Feliciana pelo poeta Gonçalves Dias. A mistura de fatos históricos e literatura é uma das características do trabalho da autora, pesquisadora voraz da nossa história.

Segue um trecho do capítulo "A poesia, o poeta", de Dias & Dias:

A poesia é para gente que gosta de errar pelos vales e campos, pelas ruas sujas, pelos becos sem saída, gente que chora a vida que se escoa lenta, longa e em vão, que ama a triste noite e suas negras asas, a poesia não é a tradução das estrelas, nem da brisa na palmeira, nem do mundo das florestas, a poesia é dor, sofrimento, espinho da vida a se entranhar no coração do poeta, poeta é aquele que sofre sem motivo, aquele que tem a inocência de determinar para sua própria vida sacrifícios de que ninguém toma conhecimento e a ninguém interessa, a não ser a algumas almas compassivas...

Recentemente li outro livro de Ana Miranda, Boca do Inferno, que conta a história da Bahia no período barroco e tem como protagonistas o poeta Gregório de Matos e o padre Antônio Vieira. Me proporcionou, sem dúvida, mais uma incrível experiência de leitura.

Para baixar Dias & Dias clique aqui.
Ana Miranda também escreve para a revista Caros Amigos.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Casa nova.


Este é um blog novinho em folha. Tão novo que me faz sentir cheiro de tinta fresca. Uma das minhas motivações para criá-lo foi a vontade de começar algo do zero. Mas isso não foi fácil. Em 2005 criei o "laricota", um dos meus primeiros endereços no mundo virtual. Ele me ensinou a avaliar com mais clareza a minha forma de escrever, de organizar idéias e aceitar as críticas.
Hoje, enquanto relia textos escritos quando eu ainda era uma estudante de ensino médio, senti a nostalgia de quem admite que mudou e compreende por que isso foi necessário. Tantas lembranças deixaram meu coração apertado e confesso que tive vontade de continuar com o antigo blog. Mas não adianta: é hora de mais uma mudança. De qualquer forma, os textos continuarão lá, para serem lidos e relidos, seja hoje, amanhã ou daqui há 200 anos.

Boas vindas!