quinta-feira, 26 de março de 2009

Depois de Stella.


Seu nome era Stella. Já nem sei por onde anda, tanto tempo faz que não tenho notícias suas. A imagem dela continua clara em minha memória, prova viva e definitiva de como bons professores podem transformar o futuro das crianças.
Eu cursava a sexta série quando me encantei pela maneira apaixonada como a professora Stella dava suas aulas de Língua Portuguesa. Além das noções de gramática e interpretação de texto, nós éramos intensamente incentivados a colocar nossas idéias no papel. E o mais incrível: ela lia com empolgação aquelas idéias, por mais malucas e desconexas que parecessem. Corrigia as falhas, os erros de construção e nos dava ânimo para continuar.
Lembro-me do dia em que ela sentou ao meu lado durante um intervalo e leu em voz alta, só para mim, uma crônica que eu mesma havia escrito e que ela dizia ser sua preferida. O texto era bastante modesto, com frases simples e falava sobre um espetáculo circense. Ao terminar a leitura, com os olhos a transbordar satisfação, Stella sentenciou: "Você daria uma ótima jornalista". Essas palavras ficaram guardadas comigo, me incentivaram a fazer do texto um saboroso ofício.
E as mudanças não aconteceram apenas comigo. Em pouco tempo, muitas crianças, inclusive as mais resistentes, haviam se rendido às aulas mágicas de Stella, às histórias que ela contava, às músicas que cantarolava e aos livros que sempre levava para a sala de aula. Impressionante foi ver o Pedro, que tinha pavor à leitura, com um Carlos Drummond pra cima e pra baixo. A Ana Carla não resistiu ao Sabino e a Bruna decorou vários versos do Vinícius, o poeta que a Stella não cansava de declamar.
Quando a sexta série chegou ao fim eu não me conformei. Desejei estendê-la por mais alguns anos, porque a mudança de escola era certa. Não teve jeito. Mas Stella nunca caiu no esquecimento. Tornou-se parte preciosa da minha história e um parâmetro do que esperar de um bom professor. Aquela mulher, tão simples e tão grandiosa, me ensinou a ver o mundo com esperança. Por causa dela, antes de entrar em qualquer sala de aula, procuro pensar positivo: "Deve haver outras Stellas perdidas por aí".


Stella = Estrela

4 comentários:

  1. Lala.. também tive Stellas, Clarices e Marias que foram exemplo em minha vida e, sem dúvida, um espelho para um pretenso futuro. As palavras são mágicas e convivem comigo em um intenso embate e num caso de amor ainda em construção. Boas prosas pra tiii.

    Dhiego Maia.

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  2. Jornalista... Eu tenho uma amiga jornalista! Beijos Lara! Saudades!

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  3. achei voce sem querer e fico feliz de ler sua escrita. parabens.

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