domingo, 22 de março de 2009

A insânia não é mais a mesma.

"A loucura era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. Começo a suspeitar que é um continente". (Machado de Assis, em O Alienista)


Se falar sozinho fosse sinônimo de loucura não haveria lugar nos hospícios para tanta gente. Atire a primeira pedra quem nunca tagarelou consigo mesmo. Mas se antigamente as pessoas tomavam todo o cuidado na hora de soltar umas palavrinhas, hoje a situação é outra. Tenho visto muitas pessoas conversando sozinhas por aí, em alto e bom som.
A última cena que presenciei aconteceu em um restaurante. Era sábado e eu almoçava com minha família. Enquanto nos divertíamos com a sobremesa e ensaiávamos nossa retirada, um rapaz forte, uns 25 anos, cabeça raspada, que não aparentava nenhum sinal de anormalidade, caminhou até a mesa que ficava ao lado da nossa e nela deixou a sacola de uma loja qualquer. Foi até o buffet e voltou com um super prato. Impossível não reparar.
Mas é lógico que não havia nada de surpreendente até aí. Foi quando olhei para o lado e percebi que entre uma garfada e outra ele conversava sozinho. Mas não era um conversar qualquer. Havia um quê de exaltação na face dele, como se brigasse com alguém. Fiquei um pouco constrangida quando ele percebeu que eu o observava. Por um momento tive a certeza de que ele cantaria para disfarçar. Estava enganada.
Os meus olhos, e os de outras pessoas que a essa altura já espreitavam a cena, não fizeram nenhuma diferença nas atitudes daquele jovem. Simplesmente olhou para a frente e continuou a falar, como se estivesse trancado em seu quarto. Uma das poucas frases que consegui entender foi: "Você pensa que pode me enlouquecer". Cheguei a pensar que aquelas palavras fossem para mim. Meu olhar de censura não tinha nenhum poder sobre ele, era ineficaz.
Quando o prato ficou vazio e não restava motivo algum para continuar ali, o protagonista daquela cena finalmente calou-se. Levantou, pagou a conta e foi embora. Sua face transmitia uma lucidez que poucas vezes cheguei a ver. Enquanto isso, meus pensamentos tentavam, inutilmente, separar loucos e sãos.

Um comentário:

  1. Todos temos momentos como esses. Difíceis de disfarçar. Muito bom Lara! Saudades!

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