quinta-feira, 30 de abril de 2009

Relato de um certo encontro.

"Mais do que o rio, uma impossibilidade que vinha de não sei onde detinha-me ao pensar na travessia, na outra margem".
(Milton Hatoum)

Não espere de mim a mesma perfeição de Hatoum para descrever os encantos amazônicos. Embora tenha nascido em Manaus, morei na cidade até os meus quatro meses de vida. Ao contrário do escritor Milton Hatoum, que desvendou as mais escondidas ruas e desenhou o homem do norte em seus textos, enxergo o Amazonas com os olhos da fascinação turística, com a mesma faceirice da criança que acaba de abrir o aguardado presente.
Estive em Manaus no início deste ano. O período que passei por lá aumentou ainda mais o meu interesse pela cultura de um povo que venera o rio e a floresta. Mais incrível ainda foi a experiência de estar em um barco cercado pelas águas do rio Amazonas. Impossível esconder a expectativa quando se está prestes a desvendar alguns dos tantos segredos escondidos entre as árvores gigantescas.
As descobertas vão muito além das plantas e animais exóticos. É, antes de tudo, uma oportunidade única para refletir sobre a vida e conectar as forças divinas da natureza com o divino que vive em nós.

Hatoum

Conhecer as obras de Milton Hatoum foi uma das boas surpresas da viagem. Os personagens criados pelo escritor são enriquecidos pela cuidadosa descrição psicológica. Hatoum nasceu em Manaus, em 1952, e é descendente de libaneses. Foi professor de Literatura da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Estreiou em 1989 com o livro Relato de um certo Oriente, seguido de Dois Irmãos, ambos ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance e publicados em oito países. Por Cinzas do Norte recebeu seu terceiro Jabuti, além dos prêmios Bravo!, APCA e Portugal Telecom de Literatura em 2006. Seu romance mais recente é Órfãos do Eldorado, que já teve seus direitos vendidos para treze países.
Confira uma entrevista de Milton Hatoum para a revista Bravo!.


Foto:
Encontro das Águas (Larissa Campos).

domingo, 5 de abril de 2009

Watchmen, o filme: Impressões.


O filme Watchmen chegou aos cinemas no dia 06 de março deste ano. Meu plano "A" era assistir o filme na sessão de pré-estreia, mas o excesso de compromissos arruinou os meus planos. Já meio descontente, só fui conferir o longa do diretor Zack Snyder no dia 17 de março. Desejei escrever sobre ele imediatamente, no entanto, preciso confessar: saí do cinema sem um idéia certa sobre Watchmen, com a necessidade de pensar melhor em tudo o que tinha assistido. De cara, uma coisa eu já sabia: não seria nada fácil adaptar para as telonas uma história em quadrinhos tão complexa.
A minha expectativa era grande porque já tinha lido a obra escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons. Acredito que no contexto cinematográfico atual, ninguém além de Zack Snyder poderia "peitar" um desafio como este. E desde o começo confiei bastante no talento do diretor, que ficou conhecido por dirigir outra adaptação de um clássico dos quadrinhos, "300", de Frank Miller. A complexidade filosófica de Watchmen e a sobreposição de histórias seriam, certamente, um desafio para qualquer pessoa que decidisse adaptar a HQ.
O filme tem começo, meio e fim bastante nítidos, é "redondo" e compreensível para aqueles que não tiveram contato com a obra literária. Mas, como é de se esperar em uma adaptação, muitas coisas ficaram de fora e outras foram modificadas para caber nos padrões de uma produção de massa. No filme, Rorschach passa, gradativamente, de personagem central à coadjuvante, ofuscado pelo brilho excessivo do Dr. Manhattan e do casal Daniel e Laurie. Para não complicar, Snyder preferiu nem fazer referência aos "Contos do cargueiro negro", uma das histórias paralelas de Watchmen. Esta foi a atitude mais acertada do diretor, caso contrário, a qualidade do filme ficaria ainda mais comprometida ou, quem sabe, ele nem chegaria aos cinemas.

Daniel e Laurie nos cinemas: explorar o romance para atrair o público

Mais do que assistir o filme, vale muito a pena ler os 12 volumes de Watchmen. Eles foram publicados pela editora DC Comics entre 1986 e 1987 e permitem ricas reflexões sobre o contexto histórico e social vivido naquela época. Watchmen retrata o clima de insegurança que marcou o período da Guerra Fria e, de certa forma, se estendeu aos dias de hoje. A ação ineficiente do Estado no combate à violência leva ao surgimento de grupos de heróis que tomam para si a tarefa de defender a sociedade. Depois de algum tempo, a ação desses vigilantes é colocada em "xeque" pela população, que não se cansa de perguntar: "Quem vigia os vigilantes?". A hostilização dos mascarados deixa o caminho livre para os planos de Adrian Veidt, um bandido com intenções de mocinho.
O terceiro volume da série, intitulado O juiz de toda Terra, é um dos meus preferidos. Nele, os diálogos trazem críticas à indústria da informação e à postura das pessoas diante daquilo que chega às bancas ou à tela da TV. Neste capítulo, o jornaleiro, que aparece várias vezes no decorrer da história, diz: "Sabe, eu leio tudo quanto é primeira página. Eu absorvo informação, não perco nada". Este mesmo jornaleiro diz, pouco antes, que é bem informado. Em meio a um verdadeiro bombardeamento de informações, quem realmente está bem informado?
Quem estiver interessado em conhecer mais sobre as obras pode clicar aqui e baixar os 12 volumes da série. Ler as criações de Alan Moore é um exercício de reflexão e criticidade, além de ser uma aula sobre roteiros que impressionam e, definitivamente, "amarram" o leitor. Um dos pontos fortes da narrativa de Moore em Watchmen é o detalhamento da estrutura psicológica dos personagens, especialmente de Rorschach. Essa estrutura foi muito bem captada pelo ator Jackie Earle Haley, a personificação de Rorschach nas telonas. O ator foi responsável, sem dúvida, pela melhor atuação do filme.

Rorschach: quando a máscara se transforma em rosto

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Doses diárias de emoção.


Não posso negar. Minha alma aventureira precisa de doses diárias de emoção. Isso não é fácil, porque com tantas responsabilidades no cotidiano, não temos muitas oportunidades para desenvolver a emoção. Diante de tudo isso, como endurecer sem jamais perder a ternura? A exaltação das coisas complexas nos levou para longe da simplicidade, para longe de nós mesmos. Há muita gente por aí que discute os avanços tecnológicos ou as teorias pós-modernas todos os dias, mas não dedica dez minutos de conversa mais íntima com outro ser humano. Digo "mais íntima" porque o mundo está cheio de superficialidades, de relações que ficam apenas no "bom dia". A emoção adormeceu e precisa ser despertada logo. Acorda, emoção!
Para mim, ouvir música é uma maneira de despertar as emoções mais escondidas. Lembro-me da primeira vez que escutei "Diariamente", doce canção de Nando Reis, gravada por Marisa Monte no cd Mais. Minha primeira reação foi de surpresa: "Como alguém consegue escrever algo tão simples e tão poético?". "Diariamente" me emociona, porque mostra a grandeza dos pequenos atos e das pequenas coisas. Essas idéias merecem (MUITO) ser compartilhadas.