segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A cidade ilhada de Hatoum



Apesar da fama internacional, muitos brasileiros desconhecem o trabalho do escritor Milton Hatoum. Nascido em Manaus, no coração da Amazônia, ele aprendeu desde pequeno a admirar a cultura de um povo que venera o rio e a floresta. Tanto encantamento pode ser encontrado nas páginas de seu mais novo livro, A cidade ilhada, primeira coletânea de contos e quinto livro do autor.
Obsessão ou não, a verdade é que as ruas e cores de Manaus estão marcadas nas obras de Hatoum. Por esta característica, ele é constantemente chamado regionalista, o que está longe de ser para ele um incômodo. Com personagens fortes, marcantes e psicologicamente bem construídos, “A cidade ilhada” reúne quatorze histórias que vão além de Manaus e foram “desenhadas” pela complexidade simples que acompanha os bons escritores.
Entre os casos contados pelo escritor em seu novo livro, alguns detalham as lembranças de um narrador que volta para a cidade de sua infância e percebe pelas esquinas e casas os vestígios de situações que um dia viveu. Como em “Varandas da Eva”, que mostra toda a expectativa de um jovem que vai pela primeira vez a um bordel e conhece uma mulher misteriosa. Recordações da infância também afloram em “Dois tempos”, com a companhia de um tio desengonçado e aulas de canto com a pianista mais famosa da cidade.
Mas o que seria de um livro de contos sem uma boa dose de loucura e suspense? Não teria graça alguma. E Hatoum utiliza esses dois elementos com sabedoria em histórias como “O adeus do comandante”, “Bárbara no inverno” e “A casa ilhada”. O último narra a saga de vingança do cientista Lavedan, transtornado por um caso de traição.
Vingança, amor e loucura se encontram também em “Bárbara no inverno”, com direito a final trágico para o relacionamento amoroso de Lázaro e Bárbara, dois brasileiros que escolheram a França como refúgio no período em que o Brasil era controlado pela ditadura militar.
Os trabalhos anteriores de Milton Hatoum foram muito elogiados pela imprensa nacional e internacional. No Brasil, ele acumula três prêmios Jabuti de melhor romance pelas obras Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte. Um dos fortes de Milton é, sem dúvida, a rica construção dos personagens e a densa descrição dos ambientes. Essas características podem ser notadas em “A Cidade Ilhada”.
Não deve demorar para que o trabalho de Hatoum chegue à televisão. O Projeto Quadrante, do diretor Luiz Fernando Carvalho, pretende transformar o livro Dois irmãos em mais uma minissérie da Rede Globo. Foi Carvalho quem dirigiu as minisséries Os maias, A pedra do reino, Hoje é dia de Maria e Capitu.
Ainda não se podem prever as conseqüências de uma adaptação como essa para a carreira literária de Hatoum, mas uma coisa é certa: será uma oportunidade para que o grande público brasileiro conheça a pena sagaz e certeira do escritor amazonense.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Viva o novo!

Essa minha paixão por música fez de mim uma verdadeira "caça-novidades". Estou sempre em busca de bandas novas e novos cantores, sem nunca abandonar os "clássicos", logicamente. Ainda bem que a música brasileira nunca nos deixa na mão e volta e meia nos presenteia com gratas novidades. A voz de Ana Canãs é uma delas.
Até pensei em escrever um monte de coisas sobre ela, mas acredito que ouví-la já diz tudo.


Ana Cañas também está no CD Drês, o álbum mais recente de Nando Reis. Ao lado do ruivo, ela canta "Pra você guardei o amor". Linda música, lindo CD.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A crise da água e a luta contra o desperdício - Terceira parte



Ações inovadoras

Larissa Cavalcante

O casal Josita Correto da Rocha Priante e Nicolau Priante Filho não esperava que uma iniciativa nascida no quintal de casa fosse ganhar tanta repercussão. Tudo começou em 1997, a partir de uma observação de Josita. Sempre que lavava roupas, a família sofria com a falta d’água. Um dia, ela teve a ideia de abolir o sistema convencional de descarga e utilizar a água da máquina de lavar para este fim. Antes de usar o banheiro, era necessário encher um balde com a água que ficava armazenada em uma caixa.
A iniciativa não foi bem aceita pelos filhos do casal, que na época eram adolescentes. Nicolau conta que os filhos tinham vergonha de levar os amigos em casa. Para resolver o problema, Josita deu uma missão ao marido: como físico, ele deveria pensar uma maneira mais prática para o reuso que, de fato, precisava ser aprimorado. Imagine o que acontecia em dias de festa, quando a casa ficava cheia de gente.
Por meio de um sonho, Nicolau teve uma ideia para o projeto. O banheiro ganharia duas caixas de descarga, uma ficaria ligada ao reservatório com água tratada e outra ao reservatório com água de reuso. Após usar o sanitário, a pessoa só puxaria a descarga convencional se, por um acaso, a de reuso estivesse vazia. Foi isso o que Nicolau fez. Mesmo assim, ainda havia muito para melhorar.
Foi então que o casal Priante decidiu institucionalizar o projeto. Nicolau apresentou o sistema de reuso ao Departamento de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), do qual era professor. O departamento decidiu formalizar o projeto e trabalhar pelo seu aprimoramento. Para residências que utilizam máquinas automáticas, uma das dificuldades era como separar a água da lavagem, mais suja, da água do enxágue.
Para isso, a UFMT desenvolveu um dispositivo eletrônico que, adaptado à máquina, faz com que ela separe as águas do processo de lavagem automaticamente. A primeira água da lavagem é usada para molhar as plantas, enquanto a água do enxágue é armazenada e encaminhada para a descarga. Esse cuidado precisa ser tomado para evitar a contaminação da água.
A tecnologia que nasceu no quintal dos Priante foi finalista do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social de 2005 e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) para instalação do sistema em dez casas no bairro Parque Cuiabá, na capital do estado. “Nunca imaginei que teria esse resultado. Tudo nasceu de uma simples observação. Quando lavava roupa, faltava água para tomar banho”, conta Josita.
O projeto incentivou dona Josita a pesquisar os índices de consumo das descargas e das máquinas de lavar. Para se ter uma ideia, uma máquina automática de 8 kg gasta 210 litros de água por lavagem. E a cada vez que alguém puxa a descarga, dez litros de água são utilizados. É preciso considerar que um adulto usa o banheiro, em média, cinco vezes ao dia. Esses números apresentam uma noção da quantidade de água gasta todos os dias em atitudes corriqueiras.
Segundo Nicolau Priante, a participação da Universidade foi fundamental para o aprimoramento e divulgação do sistema de reuso. “A academia desempenha uma função muito importante no desenvolvimento de soluções para os problemas da sociedade”, disse. Para Nicolau, independente da área de atuação, é preciso que a academia tenha a postura cidadã de trabalhar pela sociedade.

Casal Priante: criatividade para combater o desperdício de água