terça-feira, 15 de setembro de 2009

A crise da água e a luta contra o desperdício - Terceira parte



Ações inovadoras

Larissa Cavalcante

O casal Josita Correto da Rocha Priante e Nicolau Priante Filho não esperava que uma iniciativa nascida no quintal de casa fosse ganhar tanta repercussão. Tudo começou em 1997, a partir de uma observação de Josita. Sempre que lavava roupas, a família sofria com a falta d’água. Um dia, ela teve a ideia de abolir o sistema convencional de descarga e utilizar a água da máquina de lavar para este fim. Antes de usar o banheiro, era necessário encher um balde com a água que ficava armazenada em uma caixa.
A iniciativa não foi bem aceita pelos filhos do casal, que na época eram adolescentes. Nicolau conta que os filhos tinham vergonha de levar os amigos em casa. Para resolver o problema, Josita deu uma missão ao marido: como físico, ele deveria pensar uma maneira mais prática para o reuso que, de fato, precisava ser aprimorado. Imagine o que acontecia em dias de festa, quando a casa ficava cheia de gente.
Por meio de um sonho, Nicolau teve uma ideia para o projeto. O banheiro ganharia duas caixas de descarga, uma ficaria ligada ao reservatório com água tratada e outra ao reservatório com água de reuso. Após usar o sanitário, a pessoa só puxaria a descarga convencional se, por um acaso, a de reuso estivesse vazia. Foi isso o que Nicolau fez. Mesmo assim, ainda havia muito para melhorar.
Foi então que o casal Priante decidiu institucionalizar o projeto. Nicolau apresentou o sistema de reuso ao Departamento de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), do qual era professor. O departamento decidiu formalizar o projeto e trabalhar pelo seu aprimoramento. Para residências que utilizam máquinas automáticas, uma das dificuldades era como separar a água da lavagem, mais suja, da água do enxágue.
Para isso, a UFMT desenvolveu um dispositivo eletrônico que, adaptado à máquina, faz com que ela separe as águas do processo de lavagem automaticamente. A primeira água da lavagem é usada para molhar as plantas, enquanto a água do enxágue é armazenada e encaminhada para a descarga. Esse cuidado precisa ser tomado para evitar a contaminação da água.
A tecnologia que nasceu no quintal dos Priante foi finalista do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social de 2005 e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) para instalação do sistema em dez casas no bairro Parque Cuiabá, na capital do estado. “Nunca imaginei que teria esse resultado. Tudo nasceu de uma simples observação. Quando lavava roupa, faltava água para tomar banho”, conta Josita.
O projeto incentivou dona Josita a pesquisar os índices de consumo das descargas e das máquinas de lavar. Para se ter uma ideia, uma máquina automática de 8 kg gasta 210 litros de água por lavagem. E a cada vez que alguém puxa a descarga, dez litros de água são utilizados. É preciso considerar que um adulto usa o banheiro, em média, cinco vezes ao dia. Esses números apresentam uma noção da quantidade de água gasta todos os dias em atitudes corriqueiras.
Segundo Nicolau Priante, a participação da Universidade foi fundamental para o aprimoramento e divulgação do sistema de reuso. “A academia desempenha uma função muito importante no desenvolvimento de soluções para os problemas da sociedade”, disse. Para Nicolau, independente da área de atuação, é preciso que a academia tenha a postura cidadã de trabalhar pela sociedade.

Casal Priante: criatividade para combater o desperdício de água

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