domingo, 14 de fevereiro de 2010

Escrever para transcender.


"Escrever é uma pedra lançada no poço fundo". Essa é uma daquelas frases que dificilmente esquecerei. Ninguém melhor para escrevê-la do que Clarice Lispector, no livro Um sopro de vida. Um dos fatos que me fazem admirar Clarice é a elegância com que ela desabafava nos textos, a coragem com que se mostrava para quem quisesse ler. A escrita era seu grande divã e ela não tinha medo de, às vezes, parecer insana. E quem de nós não parece insano às vezes?
Ler Um sopro de vida é fundamental para compreender mais a fundo a alma de Clarice Lispector e o que ela queria transmitir com suas obras. Esse livro, que começou a ser escrito em 1974 e foi publicado em 1978, quase um ano após a morte da escritora, contém fragmentos organizados por Olga Borelli, sua grande amiga. Segundo Olga, Um sopro de vida "nasceu de um impulso doloroso que Clarice não podia conter". A verdade é que o livro transpira sentimento, é um "grito de ave de rapina".
Um sopro de vida é um intenso diálogo entre um autor e seu personagem, Ângela Pralini. Nessa longa conversa, o autor experimenta a  dádiva de ser dois e, assim, dialoga com seus próprios medos e com as verdades que deseja conhecer. Complexo? Talvez sim, talvez não. Mas foi a maneira que Clarice encontrou para desabafar.

Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever te­nho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo. (Clarice Lispector em Um sopro de vida)

Acredito que escrever cura. Colocar as inquietudes no papel é uma maneira de ficar cara-a-cara com elas. Esse momento de encontro provoca alívio, é uma possibilidade de resolver o que é preciso.  Livro de auto-ajuda? Pra quê? Prefiro papel e caneta.

 
Clarice: Escrever para entender a falta de definição da vida.

4 comentários:

  1. Clarice Lispector é encantadora com as palavras, e tenho que concordar com você, para que gastar com análise e livros de auto-ajuda se caneta e papel são bem mais baratos. Acho que todos temos um pouco de medo ao escrever e ela soube descrever este sentimento em palavras. Lindo!!!

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  2. "Um Sopro de Vida" é meu livro de cabeceira, sempre que preciso de algum tipo de inspiração abro e leio algumas páginas.
    Clarice é tudo!

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  3. Larissa, adorei o post. Sou muito fã da Clarice, minha escritora amada!!

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  4. Muito bom texto e trechos.
    Gosto muito da Clarice, realmente me interessei em ter ese livro...rs
    Bjs

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