sábado, 16 de outubro de 2010

Descobrindo a simplicidade de Tchekhov.

Leitura é uma coisa que faz parte do meu cotidiano. E quando se trata de livros, não sou preconceituosa. Leio de tudo: dos clássicos aos contemporâneos. Gosto de experimentar escritores que ainda não conheço e descobrir os diversos mundos que cada um deles é capaz de criar. No momento, estou descobrindo Tchekhov, um dos grandes nomes da literatura russa.


Já tive a oportunidade de ler outros russos, como é o caso de Gogol (ucraniano de nascimento). Com um jeito irônico inconfundível, ele retratou os altos e baixos da sociedade russa e fez do funcionalismo público o principal alvo do seu sarcasmo. Para quem deseja se aventurar nas histórias de Gogol, indico “O nariz” e “O capote”. Ambas possuem uma leveza encantadora: quando você começa a ler, não quer mais parar.


Mas voltemos a Tchekhov. Estou lendo a coletânea de contos “A dama do cachorrinho e outras histórias”. Os contos de Tchekhov possuem uma característica muito peculiar: a ausência de grandes desfechos. Ao ler sua obra, percebemos o quanto o autor se esforçava para retratar seus personagens, especialmente do ponto de vista psicológico. Por isso, os contos não são repletos de idas e vindas e não têm finais mirabolantes.


A simplicidade chega a causar admiração. É como se Tchekhov fosse um apaixonado por aquelas histórias que, de tão comuns, chegam a ser ignoradas. Mas a maneira como ele conta os fatos, preocupado em desenhar a essência dos personagens, tornou-se sua principal marca literária e fez dele um dos mais importantes escritores e dramaturgos russos.


Tchekhov!

Dos contos que li até agora, Vanka merece destaque. É uma história de esperança, sobre Vanka, um menino de 9 anos que foi entregue como aprendiz a um sapateiro e se vê obrigado a realizar trabalhos forçados. Na véspera de Natal, o garoto se esconde para escrever uma carta ao avô, contando o quanto deseja voltar para casa. Ele deposita todas as suas esperanças naquele pedaço de papel, que pode nem chegar às mãos do avô.


Ainda não cheguei ao conto A dama do cachorrinho, um dos mais famosos de Tchekhov. Em 2009, a Revista Bravo! publicou uma edição especial com os “100 contos essenciais da literatura mundial”, que traz A dama do cachorrinho como o 1º conto da lista. De acordo com a revista, “a simplicidade narrativa do autor serve à complexidade psicológica da trama”.

Um dos maiores desafios do artista é transmitir ideias ou emoções complexas com o emprego de meios simples. A dama do cachorrinho alcança tal objetivo ao tratar, com uma linguagem direta e clara, de um assunto comum aos percalços das relações humanas. Depois da primeira publicação do conto, em 1899, na revista Russkaya Mysl (Pensamento russo), o conterrâneo Máximo Gorki enviou uma carta a Tchekhov com sua opinião: “Ninguém pode escrever com tamanha simplicidade, sobre coisas tão simples, como você. Depois do mais insignificante de seus contos, tudo o mais parece grosseiro e escrito não com a pena, mas com um pedaço de pau”. O raro talento de Tchekhov para a clareza e a elegância literária é um dos fatores que colaboraram para a profundidade do retrato psicológico de seus personagens. (Revista Bravo!, Edição Especial, 100 contos essenciais da literatura mundial).

2 comentários:

  1. Olá Larissa, adorei o post. Como indicação pra quem queira conhecê-lo mais, sugiro a obra "A sala número seis". Meu preferido dele.
    Abraços!

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  2. Gógol é simplesmente fantástico. O que gosto em O capote é que sarcasmo se mistura com a sensibilidade. Tchecov também é muito bom.

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