quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A fraudadora que virou jornalista.


Vou confessar: eu já fui acusada de cometer uma fraude. Foi em 1999, quando cursava a 5ª série em uma escola pública de Cuiabá. A prefeitura da cidade organizou um concurso de redação, do qual poderiam participar os alunos de 5ª à 8ª série das escolas municipais. O tema da redação era “Os 70 anos do Coxipó”, uma das regiões mais tradicionais da cidade.

Incentivada pela professora de Língua Portuguesa, resolvi dedicar uma semana às pesquisas sobre o Coxipó e depois, munida das devidas informações, produzi um texto com a mesma dedicação do artesão que molda sua escultura. Eu era uma criança e aquele concurso gerou uma expectativa nunca sentida antes.

Aproximadamente um mês após ter me inscrito no concurso, fui surpreendida ao chegar à escola e descobrir que a diretora queria conversar comigo. Assim que entrei em sua sala, ela foi logo dizendo que não queria me ver chateada. De cara, pensei: “O assunto deve ser sério”.

Só comecei a compreender a situação quando ela me olhou fixamente nos olhos e disparou: “Lembra daquele texto sobre o Coxipó? Alguém te ajudou a escrevê-lo?” Um pouco confusa, expliquei que havia dedicado alguns dias para pesquisar sobre o tema e que o texto havia sido escrito apenas por mim, sem nenhuma intervenção.

Depois de ouvir minhas explicações, a diretora contou que os organizadores do concurso ligaram para ela após descobrirem uma fraude no evento. Durante a análise dos textos, os professores da banca examinadora chegaram à conclusão que eu era uma fraude e que o texto que escrevi não era meu. Para eles, uma criança de 5ª série não poderia escrever daquela forma, com tamanha riqueza de detalhes e informações.

A diretora explicou o caso e, com o cuidado de quem limpa um cristal raro, disse que eu havia sido eliminada do concurso. Sem controlar a indignação, reafirmei que o texto era meu e que aquilo era um equívoco. No entanto, não havia mais nada a ser feito. Por algumas semanas, ainda sentia um nó na garganta ao lembrar o que ocorreu, depois passei a achar a situação MUITO engraçada.

Na época em que participei do concurso, eu pensava em seguir as mais variadas profissões. Cheguei a pensar em Medicina (logo eu, que fico com as pernas bambas ao ver uma gota de sangue). Mas hoje percebo que aquela experiência inusitada representou um primeiro encontro com o jornalismo e fez com que eu ficasse ainda mais apaixonada pelas palavras. Foi a primeira reportagem que escrevi e, desde então, não tive mais vontade de parar.

Eu podia ter escolhido uma foto melhor, mas esta faz tanto sentido...

Um comentário:

  1. Olá Larissa, cheguei ao blog por meio da Andrea Haddad e gostei mto. Esse texto em especial, me fez lembrar de quando eu tinha 15 anos (já velha se comparar com sua quinta série, rsrs) e tive um texto publicado na revista teen da época, Capricho. Foi um soooonho, ainda ganhei uma camiseta! Hahaha não adianta, jornalismo é dom, uma pena que tantos se arriscam e acabam mtas vezs manchando a linda história que nossa profissão carrega. Tudo de bom e sucesso sempre!

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