segunda-feira, 4 de março de 2013

Daytripper: As viagens do Brás.



Ler é uma das formas mais fáceis de viajar, conhecer pessoas e lugares diferentes. Foi pela leitura que conheci Brás de Oliva Domingos, o personagem principal do livro Daytripper, do Gabriel Bá e do Fábio Moon. Enquanto lia o livro, perdi as contas de quantas vezes fiquei, literalmente, de queixo caído. Além de ser uma história em quadrinhos com desenhos primorosos, o livro é muito bem escrito, com um toque de poesia e repleto de reflexões que me deixaram feliz. Sim, feliz é a palavra.

Além disso, rolou uma identificação. Brás, assim como eu, é jornalista. No entanto, ele faz algo que eu nunca fiz: escreve obituários. E são eles, os obituários, que permeiam toda a obra e fazem com que Brás reflita a respeito do tema central do livro, a dualidade entre vida e morte. Brás tem sede de vida, mas precisa conviver com a morte todos os dias, por conta do trabalho que desenvolve. Nessa convivência, ele enfrenta um processo de autoconhecimento e se depara com a grandiosidade dessa viagem chamada vida.

Já no primeiro capítulo do livro, o leitor é surpreendido com a morte de Brás, aos 32 anos. Para quem espera o tradicional happy end, a morte do personagem, logo no primeiro capítulo, pode soar como um balde d’água fria. Mas não se preocupe, o personagem morrerá outras vezes durante a trama (Ops! Desculpe pelo momento spoiler). Dessa forma, Brás morre e renasce várias vezes durante a história, contando tramas que se conectam.

Nesse aspecto, a obra tem como característica a leitura não-linear, tão comentada em nossos dias por autores como Pierre Lévy, que se dedicam a estudar, entre outras coisas, a internet e suas diversas faces. Assim que terminei de ler o livro, pensei que deve ser interessante lê-lo novamente, sem começar pelo começo, mas por outro capítulo e, então, escolher os capítulos aleatoriamente.

Mas volto a dizer: de todas as qualidades do Daytripper, ser bem escrito é, para mim, a principal delas, o que mais me emocionou. Isso não é exagero. O livro é realmente emocionante. Especialmente porque nos faz refletir sobre a brevidade dessa dádiva imprevisível, a vida.

Há um momento em que a mãe do Brás conta como foi o nascimento do filho, a quem ela chama de “Pequeno milagre”. Ela já estava no hospital, em trabalho de parto, quando a energia acabou. Quando a criança nasceu, a mãe ficou preocupada, porque não ouviu o choro do bebê. Aqueles segundos de silêncio foram angustiantes para ela. De repente, Brás chorou e as luzes se acenderam naquele mesmo momento. Desde então, a mãe começou a chamá-lo de “Pequeno milagre”.

E essa bonita história, que trata tantas vezes da morte, é na verdade uma exaltação à vida e sua grandiosidade. Leia para compreender o que estou falando.








*Daytripper foi escrito e originalmente publicado em inglês, mas a edição em português já chegou às livrarias.