segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Educação salva!


O nome deste texto é inspirado em um pensamento que me acompanha e que estava ainda mais forte no momento em que deixei a sala de cinema após assistir "Tudo que aprendemos juntos". O filme, que está em exibição pelo país desde o dia 03 de dezembro, cumpre o importante papel de utilizar a arte para provocar importantes reflexões. As situações retratadas na tela mostram uma realidade que todos nós precisamos ver.

Lázaro Ramos interpreta Laerte, um violinista que enfrenta uma situação de crise (interior e financeira) após ser reprovado em um exame para tocar na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Por necessidade, ele decide aceitar o desafio de ensinar música para jovens de uma escola da periferia. 


Imagem: Tudo que aprendemos juntos (divulgação)

Inserido naquela realidade, Laerte não vê muitas perspectivas de mudança para seus alunos. Em vários momentos, eles se mostram arredios, sem controle e responsáveis por comportamentos reprováveis. As situações vividas por Laerte na escola simbolizam as condições de professores e instituições de ensino espalhadas por todo o Brasil. Diante da falta de estrutura e do próprio contexto social dos jovens, o professor se torna uma figura impotente, tal qual alguém que nada contra a corrente.

"Tudo que aprendemos juntos" é baseado na peça de teatro "Acorda Brasil", escrita pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes. Para escrever a peça, ele se inspirou na história do Instituto Baccarelli, organização social sem fins lucrativos que desde 1996 oferece formação musical e artística para crianças e jovens de Heliópolis, em São Paulo.

No caso de "Tudo que aprendemos juntos", a música é a grande protagonista, uma arma de transformação social que acende nos alunos a esperança de novos dias. Essa esperança é o que move o jovem Samuel, um dos alunos que se destacam no grupo ensinado por Laerte. Para se dedicar à música, ele precisa enfrentar uma série de dificuldades, desde a aceitação da família, que deseja que ele trabalhe para auxiliar financeiramente a casa, até escapar das opções perigosas (e criminosas) que estão ao alcance dele.

Criar boas opções é o caminho. Essa é a mensagem do filme dirigido por Sérgio Machado. Crianças e jovens, especialmente aqueles que residem nas periferias brasileiras, precisam de opções que representem esperança em suas vidas. Essa esperança pode vir da música, de tantas outras formas de arte, do esporte, etc, etc, etc. Mas a melhor maneira de resumir tudo isso se chama educação. Educação salva!

É esse o sentimento que nos abraça e transborda ao assistir "Tudo que aprendemos juntos". Diante disso, outras questões são apenas a cereja do bolo: a bela fotografia, as atuações repletas de sentimento e a trilha sonora que arrepia ao unir o clássico à batida urbana do rap. Ao lado de mestres como Bach e Guerra-Peixe, as rimas de Criolo e Sabotage dão voz a um povo que, cansado de ser coadjuvante, quer (e precisa) ser protagonista.







segunda-feira, 11 de maio de 2015

1Q84 – Livro I: Conhecendo Tengo e Aomame


*Atenção! Este texto contém spoilers.

Minhas primeiras palavras após terminar a leitura do livro I da trilogia 1Q84 foram: “Esse japonês é brilhante e maluco demais!” O japonês em questão é Haruki Murakami, autor da obra, considerado um dos mais importantes escritores da literatura japonesa na atualidade.


Murakami: brilhante e maluco demais!


Quando iniciei a leitura, me perguntei algumas vezes: Onde isso vai parar? E confesso que tive boas surpresas no decorrer da obra. O livro I da trilogia é basicamente uma apresentação dos dois personagens principais: o professor Tengo e a instrutora de artes marciais Aomame. As histórias de ambos se passam no Japão, em 1984.

Aos poucos vamos conhecendo os protagonistas por meio de capítulos intercalados: um capítulo sobre Aomame, outro capítulo sobre Tengo e assim sucessivamente. Nessa estrutura, somos apresentados a duas histórias inicialmente paralelas, que não apresentam relação uma com a outra.

Tengo é um professor de Matemática apaixonado por literatura e pela arte de escrever. Por conta disso, ele já havia participado de alguns concursos literários. Em um desses concursos, conheceu Komatsu, que havia feito carreira como editor de revistas literárias e demonstrara grande interesse pelo que Tengo escrevia.

Certo dia, Komatsu marca um encontro com o professor e faz uma proposta a ele. Ao analisar textos recebidos para um concurso literário da revista da qual era editor, Komatsu foi surpreendido por uma obra com história nada convencional. Chamado “Crisálida de ar”, o texto se tornava ainda mais interessante por ter sido escrito por Fukaeri, uma misteriosa garota de apenas 17 anos, que deixa Tengo encantado por sua beleza e simplicidade.

Mas a obra, por mais intrigante que parecesse, apresentava muitas imperfeições, inclusive no aspecto gramatical. Para colocar seu plano em ação, Komatsu precisava de Tengo e suas habilidades com a escrita. Por isso, o professor foi convidado pelo amigo editor a reescrever a história, sem alterar seu enredo e toda a originalidade da jovem Fukaeri.

“Crisálida de ar” conta a história “de uma garota de dez anos que vivia numa comuna atípica em meio às montanhas e que cuidava de uma cabra cega. Todas as crianças tinham uma tarefa e a dela era a de cuidar dessa cabra. A criatura, apesar de velha, tinha um significado muito especial para a comunidade e, por isso, era necessário vigiá-la para que não fosse levada por ninguém” (p. 106). Mas um dia a menina se distrai e a cabra morre. Como punição, ela deve ficar dez dias presa num depósito junto com a cabra morta.
“A cabra servia de passagem entre o mundo de cá e o mundo do Povo Pequenino. Ela não sabia se aqueles homens pequeninos eram bons ou maus. (...) Durante a noite, eles vinham para o mundo de cá através do corpo da cabra morta. E, ao amanhecer, voltavam para o mundo de lá. A garota conseguia falar com esses seres pequeninos”. (p. 106)

Mais do que garantir a participação da obra em um concurso de pequena expressão, Komatsu deseja vê-la vencedora de premiações relevantes, como a Akutagawa. Seu objetivo, como ele mesmo descreve em um trecho do livro, é ridicularizar as premiações de literatura.

Para que o plano possa se concretizar, Komatsu conta com o apoio de Tengo, que decide reescrever o texto, assim como da própria Fukaeri e seu tutor, o professor Ebisuno, que concordam com a proposta do editor. Em recompensa, os participantes do plano receberão vultosas quantias referentes à venda de “Crisálida de ar”, que, segundo Komatsu, promete ser um fenômeno da literatura japonesa.

Enquanto isso, 1Q84 narra também a história de Aomame, uma instrutora de artes marciais que desempenha uma função secreta: eliminar homens responsáveis por casos de violência doméstica.


Trilogia 1Q84


As histórias de Tengo e Aomame se conectam quando a instrutora começa a investigar um caso relacionado a uma pequena comunidade chamada Sakigake, da qual o pai de Fukaeri (a autora de Crisálida de ar) era líder. De origem agrícola, Sakigake tornou-se um grupo religioso legalmente estabelecido, que acabou dividindo-se em dois outros grupos: uma facção em prol da luta armada e outra facção contrária.

Indico muito a leitura de 1Q84. Estou animada para conhecer mais desse universo e, a partir da leitura dos próximos livros da trilogia, compreender o que significa esse Povo Pequenino, qual sua relação com Sakigake, onde estão os pais de Fukaeri e como as histórias de Tengo e Aomame irão se aproximar cada vez mais. 

Essa história envolvente mostra o inegável potencial literário e imaginário do seu escritor, um cara que, certamente, irá nos surpreender ainda mais com suas histórias repletas de reviravoltas. 

Obs.: O nome 1Q84 faz referência a 1984, ano em que os fatos ocorrem e título da famosa obra do escritor George Orwell, que serviu de inspiração para Murakami e também é citado na trilogia do japonês. Assim que eu concluir a leitura da trilogia, pretendo analisar mais profundamente a influência do romance distópico de Orwell sobre essa obra de Haruki Murakami.



sábado, 14 de março de 2015

Nocaute, cinco histórias de boxe - Jack London


Recentemente comecei a treinar kickboxing. Até então, não havia praticado nenhuma modalidade de luta e, sinceramente, pensava que era algo incompatível com a minha pessoa. Mas resolvi dar uma chance e o resultado foi melhor do que eu esperava. Simplesmente estou adorando as aulas! E para conhecer mais a respeito dessa e de outras modalidades de luta, fiz algumas pesquisas.

Nesse processo de pesquisa, cheguei a um ponto que muito me interessou: livros e filmes com temática relacionada à prática de lutas e artes marciais. No campo da literatura, um dos autores que "de cara" chamou minha atenção foi o norte-americano Jack London, de quem eu ainda não havia lido nenhuma obra. 

London, que na verdade se chamava John Griffith Chaney, era um apaixonado por boxe e escreveu algumas histórias que fazem referência ao esporte. O livro "Nocaute", publicado pela editora Benvirá, reúne cinco contos que foram publicados na década de 1920, em revistas norte-americanas. São eles: O bife, O jogo, A fera do abismo, O mexicano e O benefício da dúvida.

O livro Nocaute tem ilustrações do brasileiro Kako. Esta se refere ao conto O bife.


O conto é um gênero literário que muito aprecio e sobre o qual pretendo escrever mais vezes neste blog. No caso dos contos apresentados no livro "Nocaute", chamou minha atenção a detalhada descrição das cenas, dos personagens e, como não poderia ser diferente, dos momentos que se passam dentro do ringue. Nesses momentos, o boxe é apresentado também como uma perfeita metáfora da vida, que exige força, estratégia, habilidade e atenção para superar os obstáculos que se apresentam ao lutador.

Dos cinco contos, um dos que mais me impressionou foi O bife, que conta a história de um lutador australiano chamado Tom King. Depois de anos dedicados ao esporte, com uma série de vitórias no currículo, Tom sente o peso da idade e precisa aceitar que sua carreira está em decadência. Além disso, ele também carrega consigo as aflições de marido, pai de dois filhos, que precisa dar conta das necessidades de sua família.

Diante das dificuldades financeiras, que limitam as ambições da família e impedem Tom de comer até mesmo o bife desejado, ele se aventura em uma luta com o jovem neozelandês Sandel. A vitória pode representar dias de alívio, com o pagamento das contas atrasadas e comida na mesa. Mesmo ciente de que não havia treinado o bastante e de que precisava se alimentar melhor, Tom sobe ao ringue com Sandel, numa luta que traz a ele importantes lições e que é descrita de forma primorosa.

É a luta do jovem contra o velho, do vigor físico contra o cansaço, da ansiedade contra a experiência. Nesse embate, Tom se dá conta da naturalidade de determinados acontecimentos da vida e lembra de quando, assim como Sandel, trazia consigo o vigor e disposição da juventude, que o auxiliava a nocautear os adversários.

Ao concluir a leitura de Nocaute, tive a certeza de que não haveria nome melhor para a obra. Me senti realmente nocauteada pelos exemplos de luta e perseverança dos heróis de London, tão destemidos e fortes diante de seus desafios, que incluem, entre outras coisas, a luta contra a corrupção (dentro e fora do boxe) e o engrandecimento da classe trabalhadora, tão presentes em histórias como A fera do abismo e O mexicano.

As histórias de London me incentivaram ainda mais a continuar a prática do kickboxing, como forma de melhorar minha atenção, resistência física e, dessa forma, ter também mais disposição para nocautear as dificuldades que aparecerem pelo caminho.



Capa do livro Nocaute, que reúne contos de Jack London.





terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Dia de Poe.




Os sonhos sempre me fascinaram. Muitas vezes já me peguei tecendo reflexões sobre o que são os sonhos e porque eles acontecem. Mas esta semana, um sonho me deixou intrigada, especialmente diante dos fatos que vieram depois dele.

No sonho, eu estava sentada no banco de uma praça, na qual tenho certeza que nunca estive antes. Era noite e apenas duas luzes alaranjadas iluminavam o local. De repente, um homem de roupa preta, cabelo partido para o lado, bigode e olhar penetrante sentou-se ao meu lado.

Sem dizer nada, ele me entregou um livro vermelho, de capa dura, que trazia a frase: Histórias de mistério e terror. Então uma névoa intensa tomou conta da praça e eu acordei nesse momento, com a sensação de que o sonho era mais real do que parecia.

Decidi ir à cozinha beber água e, ao colocar os pés no chão, ao lado da cama, pisei em um livro. Para meu espanto, era o mesmo livro que me foi entregue no sonho, com Histórias de mistérios e terror de Edgar Allan Poe. Sim, eu tinha uma edição como aquela mas não me lembrava de tê-la tirado da estante recentemente. Como ele havia ido parar ali?

Na cozinha, enquanto tomava água, me lembrei do homem que me entregou o livro no sonho: era Allan Poe. Achando tudo aquilo muito estranho, resolvi afastar os questionamentos e voltei para a cama, afinal, o trabalho me esperava logo cedo.

Pela manhã, levantei cedo e devolvi o livro ao local da estante em que ele deveria estar. Após comer e tomar um banho, me dirigi ao trabalho, ainda impressionada com o sonho da madrugada.

No caminho para o trabalho, algumas coisas chamaram a minha atenção. Em um intervalo de dez minutos, vi dois carros que tinham nas placas as letras POE. Eram dois carros pretos, com vidros escuros, que não me permitiram identificar quem os conduzia.

Quando cheguei ao estacionamento do trabalho, gastei alguns minutos dentro do carro para me maquiar. Ao descer do veículo, fui surpreendida pelo grito agudo de um gato preto, que reclamava por eu ter pisado em seu longo rabo. Me assustei com o desespero do felino e quase levei um tombo.

Cheguei ao escritório com a sensação de que precisava mergulhar de cabeça no trabalho, para deixar alguns pensamentos inconvenientes de lado. Mas ao ligar o computador, me deparei com um recado em um post it colado à tela: William Wilson deseja falar com você. Na mensagem havia um número de telefone para o qual liguei insistentemente e ninguém atendeu.

Naquele dia, precisei buscar concentração além do normal para dar conta das atividades do trabalho. O sonho e todas aquelas referências a Allan Poe me pareciam muito estranhas. Era difícil não pensar em tudo aquilo.

Após um dia de trabalho sem muita produtividade, me coloquei a caminho de casa. No trajeto, ao ligar o som numa FM qualquer, ouvi a voz de Elis que, "como Poe, poeta louco americano", perguntava ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"  

Era mais uma referência a Allan Poe. Mais uma vez, seu nome povoava minha imaginação e meu dia. Eu, que tanto o admirava, buscava entender todas aquelas situações: os carros com a placa POE, o gato preto, o recado de um tal William Wilson e aquela música que cita o escritor, tocando bem no momento em que eu estava no carro.

Entrei em casa ainda desconcertada, com dúvidas que iam e vinham. Na busca por entender o que se passava, corri até a estante em busca do livro que havia deixado ali pela manhã. Eu sabia exatamente onde colocara a obra, mas fui novamente surpreendida pela sua ausência. Ela não estava mais lá. Fiz uma busca minuciosa na estante, mas foi sem sucesso. Até pensei que alguém tivesse tirado o livro dali. Era impossível. Ninguém esteve em minha casa naquela manhã.

Para acalmar os pensamentos e o coração, que batia acelerado, caminhei rapidamente até a cozinha, para beber um copo d'água. Na porta da geladeira, escrito em letras vermelhas, um bilhete anunciava: "Nevermore, nevermore".



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Dois irmãos, dois rivais.


A obra “Dois irmãos” foi publicada pelo escritor brasileiro Milton Hatoum em 2000 e é considerada uma das principais publicações da nova literatura brasileira. Assim como Hatoum, também nasci em Manaus (AM), e ouvi falar deste escritor pela primeira vez em 2009, durante uma viagem à capital amazonense. Desde então, já tive a oportunidade de ler alguns de seus livros, entre os quais estão Órfãos do Eldorado, A cidade ilhada, Relato de um certo Oriente e Dois irmãos, que é o tema deste texto.

No livro, estão presentes alguns elementos marcantes no universo de Hatoum: famílias de origem libanesa que vieram para o Brasil em busca de melhores condições de vida. Assim aconteceu com a família de Zana. Seu pai, Galib, inaugurou o restaurante Biblos em 1914, em Manaus, e ela o auxiliava nas atividades do comércio. Foi no restaurante que Zana conheceu Halim, com quem se casou e teve três filhos: os gêmeos, Yaqub e Omar, e Rânia.


Capa de Dois Irmãos. Livro recebeu o prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2001.


Halim e Zana viviam um relacionamento intenso, repleto de longos momentos de amor na rede do casal, no depósito da loja de Halim ou onde achassem conveniente. O marido chegava a ter medo da interferência que os filhos poderiam ter na vida a dois e demorou um pouco a aceitar a ideia de que a família deveria aumentar.

De fato, a vida de Zana e Halim não seria a mesma depois dos filhos, especialmente diante dos conflitos entre os gêmeos. Um dos pontos fortes da obra é a detalhada descrição dos personagens, inclusive no aspecto psicológico. Isso faz com que o leitor possa conhecer e sentir-se íntimo dos gêmeos Yaqub e Omar, tão bem descritos pelo escritor amazonense. 

Na tentativa de apaziguar os conflitos entre os gêmeos adolescentes, Halim chegou a mandar Yaqub ao Líbano. Essa decisão se deu depois que Yaqub teve o rosto cortado com um caco de vidro pelo irmão. “Então Halim decidiu: a viagem, a separação. A distância que promete apagar o ódio, o ciúme e o ato que os engendrou”. Esse período fora do Brasil deixaria marcas eternas no filho e, ao contrário do que pretendiam os pais, aumentaria o ódio e rancor entre eles. 

Yaqub tem a seriedade e a racionalidade que faltam no irmão caçula, nascido poucos minutos após ele. Enquanto Yaqub estudou, tornou-se engenheiro em São Paulo e constituiu uma família bem longe do Amazonas, Omar era o verdadeiro filho da rua, dos bares, das noites de farra e bebedeira pelos becos e igarapés de Manaus. Era um debochado e se aproveitava dos cuidados e atenção excessivos que recebia da mãe e da irmã.

Quem narra a história de Dois Irmãos é Nael, filho da índia Domingas, que trabalha na casa de Zana e Halim. Nael e sua mãe acompanham o drama da família e os resultados devastadores da rivalidade entre os irmãos. Uma das questões centrais do livro é justamente a dúvida de Nael a respeito de quem é seu pai.

Ao conhecer a história da família e a personalidade indomável de Omar, o leitor começa a pensar que não pode haver outro fim para esta história, a não ser o provável duelo entre os irmãos. Enquanto leitora, eu algumas vezes pensei: Mais cedo ou mais tarde eles vão ficar cara a cara e, talvez, não sobre nenhum dos dois. No entanto, Hatoum nos surpreende: o desfecho é bem menos sangrento do que se possa imaginar, mas não menos vingativo.

Dois irmãos é um retrato intenso e vibrante de um drama familiar sem rodeios, sem meio termo. A construção dos personagens é bonita, detalhista e a narrativa não-linear forma um vai-e-vem envolvente.


HQ e TV

A história dos gêmeos Yaqub e Omar tem servido de inspiração para outros artistas. Entre eles estão os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon (já falei sobre eles aqui). A dupla adaptou a obra de Hatoum para os quadrinhos e a expectativa é de que a HQ chegue às livrarias em março deste ano.

Para fazer a adaptação, Bá e Moon quiseram conhecer ao máximo a cultura amazonense e a cidade de Manaus. Foram até lá, conheceram os locais citados na obra de Hatoum, consultaram livros e outras publicações para conhecer um pouco a Manaus de antigamente, do início do século XX até a década de 1960.

A adaptação de Dois Irmãos para os quadrinhos será lançada pela editora Companhia das Letras. No blog da editora, na seção Palavra do autor, estão disponíveis alguns textos escritos pelo Gabriel Bá a respeito do processo de criação da obra. É interessante ver como a dupla se dedicou para que o resultado final, tanto do roteiro como dos desenhos, pudesse ser o mais próximo possível do livro de Hatoum.



Gabriel Bá e Fábio Moon divulgaram recentemente a capa da adaptação de Dois Irmãos para os quadrinhos.


Além dos quadrinhos, a história dos dois irmãos também deve chegar à TV no segundo semestre de 2015. O diretor Luiz Fernando Carvalho (de Capitu e A pedra do reino) prepara uma minissérie de dez episódios baseada na obra de Hatoum. Na fase adulta, Yaqub e Omar serão representados pelo ator Cauã Reymond. O elenco conta com outras feras da teledramaturgia, como Eliane Giardini, Antônio Fagundes, Osmar Prado e Juliana Paes, além da participação de um grupo de atores amazonenses.


Cauã Reymond viverá os gêmeos Yaqub e Omar na minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho.


Boa parte da minissérie foi gravada na cidade de Itacoatiara, no Amazonas, e o elenco vivenciou uma intensa fase de preparação antes das filmagens. Agora é aguardar as adaptações. Acredito que, diante dos artistas envolvidos, os resultados prometem ser muito interessantes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Marco Civil da Internet: Você pode participar!


Desde que comecei a estudar Direito, na Universidade Federal de Mato Grosso, tive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos em algumas áreas que eram desconhecidas a mim. Apesar de todas as novidades que enfrentei quando iniciei o curso (e das novidades que surgem diariamente), alguns temas já me interessavam muito e eu sentia necessidade de conhecê-los mais a fundo.

Um desses temas é a Internet e as questões legais que estão relacionadas a ela. Com a expansão da Rede Mundial de Computadores, tornou-se fundamental discutir os direitos e deveres de seus usuários, assim como a responsabilidade das empresas que fornecem os serviços de acesso à Rede e lidam com as informações desses usuários.

Para estabelecer regras referentes a temas como neutralidade, privacidade, registros de acesso, entre outros, o Congresso Nacional aprovou o Marco Civil da Internet no Brasil (Lei nº 12.965), sancionado em abril de 2014. Agora, a lei precisa ser regulamentada e, para concluir esse processo, o Ministério da Justiça iniciou uma fase de debates, da qual a população pode participar de maneira muito fácil: pela própria internet.

Os interessados em palpitar sobre o Marco Civil, devem acessar o site www.participacao.mj.gov.br e fazer um cadastro rápido. Feito isso, é possível acessar os debates sobre a Lei nº 12.965, que ocorrem por meio de fóruns de discussão sobre diferentes questões, como velocidade da internet sem corte ou redução, a responsabilidade civil nas aplicações de acordo com o Marco Civil, a separação entre internet e os serviços de telecomunicações utilizados, neutralidade, pacotes de acesso, velocidades distintas de download e upload, entre outros. Também é permitido que os participantes criem novas pautas para serem debatidas.



Além da plataforma para discutir o Marco Civil, também está disponível uma outra plataforma para Debate Público do Anteprojeto de Lei sobre Proteção de Dados Pessoais. Os debates estarão abertos pelo período de um mês e a participação de todos nós (usuários da internet) é importante, afinal, vivemos um processo em que começam a ser consolidadas as primeiras legislações brasileiras específicas sobre a Internet. E isso pode impactar todos nós e a maneira como utilizamos a Rede.





Uma das orientações do Ministério da Justiça para aqueles que desejam participar do processo de debates pela internet, é que procurem qualificar ao máximo suas sugestões e apontamentos, o que certamente elevará o nível das discussões e resultará em um material mais fundamentado, que assim será melhor aproveitado por aqueles que analisarão as opiniões registradas nas plataformas.

Para mais informações sobre os debates promovidos pelo Ministério da Justiça é possível acessar duas páginas no Facebook: 


Vamos participar!


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Dica de leitura: O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman

Já não me lembro qual foi a primeira vez que ouvi falar de Neil Gaiman, mas tenho certeza de que, assim como muitas pessoas, o conheci por causa de Sandman, sua famosa série em quadrinhos. Mas, desta vez, o assunto é o lado romancista desse inglês, que em 2013 publicou O oceano no fim do caminho, um livro que me surpreendeu.




Antes de qualquer coisa, O oceano no fim do caminho é um livro sobre lembranças e carrega consigo uma senhora dose de melancolia. As memórias relatadas na obra pertencem a um homem que tem a oportunidade de retornar ao local onde passou parte de sua infância, no interior da Inglaterra. Esse retorno, motivado por um falecimento, traz à tona cenas de um passado que permanece vivo em sua memória.

Em muitas de suas lembranças está Lettie Hempstock, uma garota corajosa que ele conheceu quando criança e com quem teve a alegria de compartilhar grandes aventuras, especialmente na fazenda da família dela. As situações vividas pelos dois são repletas de fantasia, com direito a criaturas perigosas que vivem nos limites do bosque, artimanhas para fugir de uma governanta perigosa, pessoas com poderes especiais e brincadeiras no lago da fazenda, que Lettie chamava de oceano.

Ao contar histórias que misturam realidade e fantasia, Neil Gaiman faz uma exaltação à infância e ao poder libertador que ela tem, o que pode ser percebido em alguns trechos do livro.





O narrador nos envolve nas histórias de sua infância e, aos poucos, vamos conhecendo a criança que um dia ele foi. Um dos fatores marcantes em sua vida é a influência dos livros, tidos como seus grandes companheiros e que muito aguçaram sua imaginação. Em um trecho ele diz: "Desde pequeno eu sempre pegava ideias emprestadas dos livros. Eles me ensinaram quase tudo o que eu sabia sobre o que as pessoas faziam, sobre como me comportar. Eram meus professores e meus conselheiros. Nos livros, os garotos subiam em árvores, então eu subia em árvores, às vezes muito altas, sempre com medo de cair". 

E dessa forma conhecemos os caminhos e aventuras do narrador e sua amiga Lettie, desde o momento em que se conhecem até o dia da separação. Quarenta anos depois, ao contemplar o lago que a amiga chamava de oceano, ele reconhece que todas as histórias vividas ali deixaram marcas eternas. Então se dá conta de que aquilo que ele sentia não era saudade da infância, era saudade de encontrar prazer nas pequenas coisas da vida e, com elas, se sentir satisfeito, preenchido.

O oceano no fim do caminho é uma obra envolvente, com doses de aventura e fantasia. Um de seus pontos positivos é o texto leve, que proporciona uma agradável experiência de leitura. Vale a pena conhecer!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Concursos públicos: O caminho que escolhi


Hoje vou compartilhar um pouco da minha trajetória como "concurseira" com vocês. Quem decide buscar a aprovação em um concurso sabe perfeitamente que não é um caminho fácil. Muitas vezes nos sentimos inseguros e nos questionamos se realmente fizemos a escolha certa.

Estudei Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e me formei em 2010. Nessa época, já enxergava nos concursos públicos uma ótima alternativa para quem não deseja se sujeitar à dura realidade da profissão, marcada pela desvalorização e pelos baixos salários. Eu sempre achei o jornalismo incrível, mas, quando se trata do trabalho nas redações, algumas experiências que tive me desanimaram.

Foi então que, timidamente, comecei a estudar para concursos. Digo “timidamente” porque você leva um tempo até encontrar o seu próprio ritmo de estudos e isso é muito normal. Para tentar acelerar esse processo de adaptação, assisti muitos vídeos, conversei com pessoas que já estavam nesse caminho a alguns anos, li várias obras de autores como William Douglas e de outros “gurus” dos concursos.

Ainda sem me sentir muito preparada, cheguei a fazer algumas provas de nível médio e até fui aprovada em um concurso do Banco do Brasil, mas não me apresentei para ocupar a vaga porque precisaria me mudar para uma cidade do interior de Mato Grosso, o que não estava nos meus planos naquela época.

Ainda em 2010, me inscrevi no Enem, com o objetivo de conseguir uma vaga no curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso. E consegui! O Direito foi uma das paixões que o estudo para concursos me rendeu. Nessa época, eu trabalhava no departamento de Comunicação da concessionária de energia elétrica de Mato Grosso e gostava muito do ambiente de trabalho e das atividades que desenvolvia por lá. Quando se trata da área de Comunicação, me encontrei profissionalmente ao trabalhar em assessoria, desenvolvendo um trabalho mais institucional.

No ano seguinte, me vi na árdua rotina de quem precisava trabalhar em período integral e estudar à noite. Nesse momento, o estudo para concursos foi interrompido e parecia algo distante da minha realidade. Em 2012, cheguei a começar o segundo ano da faculdade de Direito, mas, após muita reflexão, optei por trancar o curso para usar o período noturno em nome de um objetivo: estudar para concursos.

Apesar de gostar muito da faculdade, cheguei à conclusão de que poderia criar melhores condições para fazê-la. Logo que tranquei a faculdade fiz minha matrícula em um cursinho para concursos públicos. Ou seja, passava o dia inteiro no trabalho e depois seguia para algumas horas de aula. Quando o cursinho acabou, continuei com a rotina de estudos em casa ou nas bibliotecas da UFMT.

Em 2013, estava decidida a retomar a faculdade e, além disso, também sentia que, para alcançar o que eu queria, era necessário ter mais dedicação e tempo. Tempo era o que eu mais precisava naquele momento, tanto para estudar para concursos como para melhorar meu rendimento na faculdade.

Voltei a me animar com concursos quando fiz a prova da Universidade Federal de Mato Grosso, no início de 2013, e fiquei em 8º lugar. Embora o concurso só oferecesse uma vaga para contratação, o resultado me deixou animada. Depois disso, procurei continuar os estudos e também aperfeiçoá-los por meio de técnicas de estudo, uso de programas para resolução de questões (como o Super Provas), assim como a utilização de áudios e vídeos.

Costumo dizer que 2013 foi um ano de muitas mudanças na minha vida. Retomei a faculdade de Direito e voltei à rotina de trabalhar em período integral e estudar à noite. Além dessa mudança, outras aconteceram. Me casei em outubro e tomei uma das decisões mais difíceis que precisei encarar até hoje: trocar um emprego muito bacana, com salário legal e vários benefícios, por outro no qual eu ganharia menos da metade do que estava acostumada a receber.

Imagine o impacto dessa decisão para quem havia acabado de se casar e estava cheia de contas para pagar. No entanto, o novo emprego tinha algumas características que me agradavam muito, especialmente a possibilidade de trabalhar apenas no período da manhã. Com o apoio do meu marido, encarei o desafio e, com isso, pude ampliar meu tempo de estudos.

Nessa época, eu já estava de olho nos concursos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL/MT) e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/MT). As minhas tardes eram dedicadas aos estudos. Montei um cronograma interessante, que me permitia estudar novos conteúdos, revisar os que já havia estudado e resolver exercícios, algo que me auxiliou muito. Para esses dois concursos dediquei, aproximadamente, quatro meses de intensos estudos.

Uma dica importante que gostaria de dar é quanto à resolução de questões das bancas organizadoras dos concursos. Vou citar como exemplo o concurso da AL/MT. Como a organizadora era a FGV, o meu foco era a resolução de questões dessa banca, o que foi muito produtivo.

As provas desses concursos aconteceram no final de 2013 e os resultados me deixaram muito satisfeita: 1º lugar no concurso do CAU e 10º lugar no concurso da AL/MT. Em março de 2014 fui convocada para trabalhar no Conselho, o que me proporcionou uma experiência muito enriquecedora. Em outubro de 2014 veio a convocação para o cargo de Jornalista da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, onde trabalho atualmente. Estou gostando muito da minha nova realidade profissional e posso garantir que o aprendizado tem sido intenso.

A minha experiência com concursos públicos tem me mostrado como é importante ser mais confiante e acreditar na nossa capacidade de conseguir o que desejamos. Isso pode mudar nosso futuro! Para se ter uma ideia, quase desisti de fazer o concurso do CAU/MT porque várias vezes me senti insegura diante do fato de que apenas um candidato seria aprovado. Mas fui lá, fiz a prova e consegui a primeira colocação. O mesmo aconteceu com minha irmã, Layara, primeira colocada para o cargo de analista técnica. Tive a felicidade de trabalhar com minha irmã durante os oito meses em que estive no Conselho.


 Primeira turma de funcionárias concursadas do CAU/MT.



Quando olho para o caminho que cruzei até aqui, vejo quantas dificuldades foram superadas e sinto que, muitas vezes, precisamos abrir mão daquilo que temos em nome de um objetivo maior. Não foi fácil deixar um trabalho no qual as condições eram tão favoráveis e me arriscar. Aliás, muitos me disseram que aquilo era arriscado demais. Mas não me arrependo. Cada minuto de estudo valeu a pena. Que venham novos desafios e novos concursos, porque não pretendo parar por aqui.

E se você também deseja se aventurar pelo caminho dos concursos públicos, veja algumas das oportunidades que estão por vir:






*Esse post é dedicado ao meu marido, Járede Oliver, que muito incentivou a minha decisão de estudar para concursos e não mede esforços para que eu possa aprimorar minhas técnicas de estudo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Voltei e trouxe Ana Miranda comigo!

Depois de um tempo considerável (quase dois anos) sem postar nada por aqui, decidi voltar. Criei este blog em 2009, com o objetivo de compartilhar algumas opiniões minhas a respeito de coisas pelas quais me interesso, especialmente literatura e cinema. Continuo apaixonada por livros e filmes, mas agora também quero utilizar este espaço para tratar de outros assuntos que fazem parte da minha vida, como é o caso do estudo para concursos públicos e temas relacionados ao mundo jurídico.


Para marcar meu retorno ao blog, decidi escrever sobre Semíramis, o livro mais recente da autora brasileira Ana Miranda. Para quem não conhece a Ana, já falei sobre ela por aqui. Depois de ter lido algumas obras dessa cearense, como Dias & Dias, Boca do Inferno e O Retrato do Rei, resolvi me aventurar pelas páginas de Semíramis, até porque estava com saudade das personagens arrebatadoras e poeticamente construídas por Ana Miranda.


Capa do livro Semíramis, com desenho feito pela própria Ana Miranda.


Em Semíramis, quem narra a história é Iriana, irmã da personagem que dá nome à trama. As irmãs têm uma relação de cumplicidade e amor que permeia todo o livro e, mesmo que em determinados momentos elas se distanciem fisicamente, continuam unidas em pensamento e também pelas cartas que trocam. Perto ou distante, Semíramis se manifesta de maneira intensa e manipuladora em relação à vida da irmã.

Semíramis e Iriana vivem no Ceará do século XIX, em um período em que a política era o que movimentava as cidades brasileiras. Após se tornar independente de Portugal, o Brasil começa a dar importantes passos rumo à proclamação da República. Nesse contexto, o interior do Ceará, onde vivem as irmãs, assiste aos constantes conflitos entre grupos rivais. Em meio a esse cenário, que se repete por todo o interior do Brasil, os conflitos políticos resultam em mortes e famílias destruídas.

Então, o que restaria para uma mulher? A resposta era simples: casar com um bom partido, ter filhos e, com muita sorte, ir morar no Rio de Janeiro. É o que acontece com Semíramis, que segue para a capital e deixa a família no Ceará. A partir de então, as irmãs começam a se comunicar por cartas que, durante muito tempo, levam Iriana a acreditar que Semíramis vive a felicidade plena.

A família de Iriana até tenta convencê-la, mas ela se recusa a viver uma vida de fachada, com casamento arranjado e um destino parecido com o de muitas mulheres da época. Nossa corajosa narradora prefere alimentar um amor platônico, por um menino que ela viu nascer e que acompanha à distância, um tal de Cazuzinha. O menino nascido no Ceará se tornaria um dos grandes escritores brasileiros, autor de obras como O Guarani e Iracema. Cazuzinha cresce, torna-se advogado, escritor e ganha reconhecimento na política, sendo conhecido como José de Alencar.

Em meio às aventuras de Iriana e Semíramis, o leitor acompanha os passos do escritor nordestino, que chegaria a ser ministro da Justiça e que é patrono da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras. Sem dúvida, a obra de Ana Miranda é uma aula de história brasileira. Nessa mistura de ficção e realidade é possível conhecer um pouco mais da trajetória de José de Alencar, um escritor do qual eu não tinha boas lembranças. No ensino fundamental, fui "obrigada" a ler algumas de suas obras para fazer trabalhos escolares. Ana me incentivou a querer conhecê-lo mais de perto, sem deveres e obrigações.

Alguns detalhes da vida de Alencar, porém, nunca serão confirmados. Um dos boatos mais conhecidos a respeito do escritor refere-se a seu segundo filho, Mário. Há quem diga que ele não era filho de José de Alencar, mas de Machado de Assis. O suposto triângulo amoroso teria servido como pano de fundo para uma das obras mais importantes de Assis: Dom Casmurro. Mas isso é outra história. Semíramis é uma ótima dica para quem curte literatura brasileira bem trabalhada, com toques de poesia e uma boa dose de história.


Ana Miranda, ganhadora de dois prêmios Jabuti (1990 e 2003).


Abaixo, trecho de Semíramis:

Chapéu ajardinado - Durante a viagem, parece que esquecido dos ciúmes, vovô virou naturalista. Entrava nos matos embastidos, eu atrás, ele colhendo folhinhas, gravetos e insetos, que ia espetando no chapéu de palha, onde secavam ao sol. Era curioso vê-lo caminhando na caatinga, com seu paletó tão alvo, botas altas, e aquele jardim sobre a cabeça, eu atrás, debaixo de uma sombrinha de chita, devíamos parecer um par de personagens saídos da imaginação de um romancista num país de fábulas. Ele me mostrava o que colhia, dando detalhes das corolas, das pétalas, aquela florzinha era fendida em cinco lacínias, a semente ouriçada, dava-se para eu espetar os dedos, acariciar flores solitárias e encarnadas, mostrava sinuosidade das folhas, as que serviam ao fabrico de cordas para redes, cotonias, lençarias e davam um linho muito alvo e vovô espetava um carrapicho no chapéu. E os coqueiros, que cousa mais linda os coqueiros balouçando nas areias, calmos, elegantes, eu nunca tinha visto um coqueiro de mar, nem tantos caroás juntos, e vovô entrava nos caroazais sem medo dos espinhos, me mandava ficar esperando e retornava com umas florzinhas discretas e separadas e me mostrava: esta é a espiga, este é o cálice, esta é a corola, estes os estames, e este, o pistilo cabeçudo. Eu saía dali toda arranhada, a barra da saia cheia de formigas, mas aprendi muito com essas viagens filosóficas de meu avô pelas caatingas, mais que tudo, aprendi que o que parece ser nada pode ocultar belezas, e mesmo nas mais singelas regiões da terra, ou da alma, se encontra a sustentação da vida, e que qualquer florzinha pode ser ponto de partida para uma infinidade de cousas.