quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Marco Civil da Internet: Você pode participar!


Desde que comecei a estudar Direito, na Universidade Federal de Mato Grosso, tive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos em algumas áreas que eram desconhecidas a mim. Apesar de todas as novidades que enfrentei quando iniciei o curso (e das novidades que surgem diariamente), alguns temas já me interessavam muito e eu sentia necessidade de conhecê-los mais a fundo.

Um desses temas é a Internet e as questões legais que estão relacionadas a ela. Com a expansão da Rede Mundial de Computadores, tornou-se fundamental discutir os direitos e deveres de seus usuários, assim como a responsabilidade das empresas que fornecem os serviços de acesso à Rede e lidam com as informações desses usuários.

Para estabelecer regras referentes a temas como neutralidade, privacidade, registros de acesso, entre outros, o Congresso Nacional aprovou o Marco Civil da Internet no Brasil (Lei nº 12.965), sancionado em abril de 2014. Agora, a lei precisa ser regulamentada e, para concluir esse processo, o Ministério da Justiça iniciou uma fase de debates, da qual a população pode participar de maneira muito fácil: pela própria internet.

Os interessados em palpitar sobre o Marco Civil, devem acessar o site www.participacao.mj.gov.br e fazer um cadastro rápido. Feito isso, é possível acessar os debates sobre a Lei nº 12.965, que ocorrem por meio de fóruns de discussão sobre diferentes questões, como velocidade da internet sem corte ou redução, a responsabilidade civil nas aplicações de acordo com o Marco Civil, a separação entre internet e os serviços de telecomunicações utilizados, neutralidade, pacotes de acesso, velocidades distintas de download e upload, entre outros. Também é permitido que os participantes criem novas pautas para serem debatidas.



Além da plataforma para discutir o Marco Civil, também está disponível uma outra plataforma para Debate Público do Anteprojeto de Lei sobre Proteção de Dados Pessoais. Os debates estarão abertos pelo período de um mês e a participação de todos nós (usuários da internet) é importante, afinal, vivemos um processo em que começam a ser consolidadas as primeiras legislações brasileiras específicas sobre a Internet. E isso pode impactar todos nós e a maneira como utilizamos a Rede.





Uma das orientações do Ministério da Justiça para aqueles que desejam participar do processo de debates pela internet, é que procurem qualificar ao máximo suas sugestões e apontamentos, o que certamente elevará o nível das discussões e resultará em um material mais fundamentado, que assim será melhor aproveitado por aqueles que analisarão as opiniões registradas nas plataformas.

Para mais informações sobre os debates promovidos pelo Ministério da Justiça é possível acessar duas páginas no Facebook: 


Vamos participar!


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Dica de leitura: O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman

Já não me lembro qual foi a primeira vez que ouvi falar de Neil Gaiman, mas tenho certeza de que, assim como muitas pessoas, o conheci por causa de Sandman, sua famosa série em quadrinhos. Mas, desta vez, o assunto é o lado romancista desse inglês, que em 2013 publicou O oceano no fim do caminho, um livro que me surpreendeu.




Antes de qualquer coisa, O oceano no fim do caminho é um livro sobre lembranças e carrega consigo uma senhora dose de melancolia. As memórias relatadas na obra pertencem a um homem que tem a oportunidade de retornar ao local onde passou parte de sua infância, no interior da Inglaterra. Esse retorno, motivado por um falecimento, traz à tona cenas de um passado que permanece vivo em sua memória.

Em muitas de suas lembranças está Lettie Hempstock, uma garota corajosa que ele conheceu quando criança e com quem teve a alegria de compartilhar grandes aventuras, especialmente na fazenda da família dela. As situações vividas pelos dois são repletas de fantasia, com direito a criaturas perigosas que vivem nos limites do bosque, artimanhas para fugir de uma governanta perigosa, pessoas com poderes especiais e brincadeiras no lago da fazenda, que Lettie chamava de oceano.

Ao contar histórias que misturam realidade e fantasia, Neil Gaiman faz uma exaltação à infância e ao poder libertador que ela tem, o que pode ser percebido em alguns trechos do livro.





O narrador nos envolve nas histórias de sua infância e, aos poucos, vamos conhecendo a criança que um dia ele foi. Um dos fatores marcantes em sua vida é a influência dos livros, tidos como seus grandes companheiros e que muito aguçaram sua imaginação. Em um trecho ele diz: "Desde pequeno eu sempre pegava ideias emprestadas dos livros. Eles me ensinaram quase tudo o que eu sabia sobre o que as pessoas faziam, sobre como me comportar. Eram meus professores e meus conselheiros. Nos livros, os garotos subiam em árvores, então eu subia em árvores, às vezes muito altas, sempre com medo de cair". 

E dessa forma conhecemos os caminhos e aventuras do narrador e sua amiga Lettie, desde o momento em que se conhecem até o dia da separação. Quarenta anos depois, ao contemplar o lago que a amiga chamava de oceano, ele reconhece que todas as histórias vividas ali deixaram marcas eternas. Então se dá conta de que aquilo que ele sentia não era saudade da infância, era saudade de encontrar prazer nas pequenas coisas da vida e, com elas, se sentir satisfeito, preenchido.

O oceano no fim do caminho é uma obra envolvente, com doses de aventura e fantasia. Um de seus pontos positivos é o texto leve, que proporciona uma agradável experiência de leitura. Vale a pena conhecer!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Concursos públicos: O caminho que escolhi


Hoje vou compartilhar um pouco da minha trajetória como "concurseira" com vocês. Quem decide buscar a aprovação em um concurso sabe perfeitamente que não é um caminho fácil. Muitas vezes nos sentimos inseguros e nos questionamos se realmente fizemos a escolha certa.

Estudei Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e me formei em 2010. Nessa época, já enxergava nos concursos públicos uma ótima alternativa para quem não deseja se sujeitar à dura realidade da profissão, marcada pela desvalorização e pelos baixos salários. Eu sempre achei o jornalismo incrível, mas, quando se trata do trabalho nas redações, algumas experiências que tive me desanimaram.

Foi então que, timidamente, comecei a estudar para concursos. Digo “timidamente” porque você leva um tempo até encontrar o seu próprio ritmo de estudos e isso é muito normal. Para tentar acelerar esse processo de adaptação, assisti muitos vídeos, conversei com pessoas que já estavam nesse caminho a alguns anos, li várias obras de autores como William Douglas e de outros “gurus” dos concursos.

Ainda sem me sentir muito preparada, cheguei a fazer algumas provas de nível médio e até fui aprovada em um concurso do Banco do Brasil, mas não me apresentei para ocupar a vaga porque precisaria me mudar para uma cidade do interior de Mato Grosso, o que não estava nos meus planos naquela época.

Ainda em 2010, me inscrevi no Enem, com o objetivo de conseguir uma vaga no curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso. E consegui! O Direito foi uma das paixões que o estudo para concursos me rendeu. Nessa época, eu trabalhava no departamento de Comunicação da concessionária de energia elétrica de Mato Grosso e gostava muito do ambiente de trabalho e das atividades que desenvolvia por lá. Quando se trata da área de Comunicação, me encontrei profissionalmente ao trabalhar em assessoria, desenvolvendo um trabalho mais institucional.

No ano seguinte, me vi na árdua rotina de quem precisava trabalhar em período integral e estudar à noite. Nesse momento, o estudo para concursos foi interrompido e parecia algo distante da minha realidade. Em 2012, cheguei a começar o segundo ano da faculdade de Direito, mas, após muita reflexão, optei por trancar o curso para usar o período noturno em nome de um objetivo: estudar para concursos.

Apesar de gostar muito da faculdade, cheguei à conclusão de que poderia criar melhores condições para fazê-la. Logo que tranquei a faculdade fiz minha matrícula em um cursinho para concursos públicos. Ou seja, passava o dia inteiro no trabalho e depois seguia para algumas horas de aula. Quando o cursinho acabou, continuei com a rotina de estudos em casa ou nas bibliotecas da UFMT.

Em 2013, estava decidida a retomar a faculdade e, além disso, também sentia que, para alcançar o que eu queria, era necessário ter mais dedicação e tempo. Tempo era o que eu mais precisava naquele momento, tanto para estudar para concursos como para melhorar meu rendimento na faculdade.

Voltei a me animar com concursos quando fiz a prova da Universidade Federal de Mato Grosso, no início de 2013, e fiquei em 8º lugar. Embora o concurso só oferecesse uma vaga para contratação, o resultado me deixou animada. Depois disso, procurei continuar os estudos e também aperfeiçoá-los por meio de técnicas de estudo, uso de programas para resolução de questões (como o Super Provas), assim como a utilização de áudios e vídeos.

Costumo dizer que 2013 foi um ano de muitas mudanças na minha vida. Retomei a faculdade de Direito e voltei à rotina de trabalhar em período integral e estudar à noite. Além dessa mudança, outras aconteceram. Me casei em outubro e tomei uma das decisões mais difíceis que precisei encarar até hoje: trocar um emprego muito bacana, com salário legal e vários benefícios, por outro no qual eu ganharia menos da metade do que estava acostumada a receber.

Imagine o impacto dessa decisão para quem havia acabado de se casar e estava cheia de contas para pagar. No entanto, o novo emprego tinha algumas características que me agradavam muito, especialmente a possibilidade de trabalhar apenas no período da manhã. Com o apoio do meu marido, encarei o desafio e, com isso, pude ampliar meu tempo de estudos.

Nessa época, eu já estava de olho nos concursos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL/MT) e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/MT). As minhas tardes eram dedicadas aos estudos. Montei um cronograma interessante, que me permitia estudar novos conteúdos, revisar os que já havia estudado e resolver exercícios, algo que me auxiliou muito. Para esses dois concursos dediquei, aproximadamente, quatro meses de intensos estudos.

Uma dica importante que gostaria de dar é quanto à resolução de questões das bancas organizadoras dos concursos. Vou citar como exemplo o concurso da AL/MT. Como a organizadora era a FGV, o meu foco era a resolução de questões dessa banca, o que foi muito produtivo.

As provas desses concursos aconteceram no final de 2013 e os resultados me deixaram muito satisfeita: 1º lugar no concurso do CAU e 10º lugar no concurso da AL/MT. Em março de 2014 fui convocada para trabalhar no Conselho, o que me proporcionou uma experiência muito enriquecedora. Em outubro de 2014 veio a convocação para o cargo de Jornalista da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, onde trabalho atualmente. Estou gostando muito da minha nova realidade profissional e posso garantir que o aprendizado tem sido intenso.

A minha experiência com concursos públicos tem me mostrado como é importante ser mais confiante e acreditar na nossa capacidade de conseguir o que desejamos. Isso pode mudar nosso futuro! Para se ter uma ideia, quase desisti de fazer o concurso do CAU/MT porque várias vezes me senti insegura diante do fato de que apenas um candidato seria aprovado. Mas fui lá, fiz a prova e consegui a primeira colocação. O mesmo aconteceu com minha irmã, Layara, primeira colocada para o cargo de analista técnica. Tive a felicidade de trabalhar com minha irmã durante os oito meses em que estive no Conselho.


 Primeira turma de funcionárias concursadas do CAU/MT.



Quando olho para o caminho que cruzei até aqui, vejo quantas dificuldades foram superadas e sinto que, muitas vezes, precisamos abrir mão daquilo que temos em nome de um objetivo maior. Não foi fácil deixar um trabalho no qual as condições eram tão favoráveis e me arriscar. Aliás, muitos me disseram que aquilo era arriscado demais. Mas não me arrependo. Cada minuto de estudo valeu a pena. Que venham novos desafios e novos concursos, porque não pretendo parar por aqui.

E se você também deseja se aventurar pelo caminho dos concursos públicos, veja algumas das oportunidades que estão por vir:






*Esse post é dedicado ao meu marido, Járede Oliver, que muito incentivou a minha decisão de estudar para concursos e não mede esforços para que eu possa aprimorar minhas técnicas de estudo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Voltei e trouxe Ana Miranda comigo!

Depois de um tempo considerável (quase dois anos) sem postar nada por aqui, decidi voltar. Criei este blog em 2009, com o objetivo de compartilhar algumas opiniões minhas a respeito de coisas pelas quais me interesso, especialmente literatura e cinema. Continuo apaixonada por livros e filmes, mas agora também quero utilizar este espaço para tratar de outros assuntos que fazem parte da minha vida, como é o caso do estudo para concursos públicos e temas relacionados ao mundo jurídico.


Para marcar meu retorno ao blog, decidi escrever sobre Semíramis, o livro mais recente da autora brasileira Ana Miranda. Para quem não conhece a Ana, já falei sobre ela por aqui. Depois de ter lido algumas obras dessa cearense, como Dias & Dias, Boca do Inferno e O Retrato do Rei, resolvi me aventurar pelas páginas de Semíramis, até porque estava com saudade das personagens arrebatadoras e poeticamente construídas por Ana Miranda.


Capa do livro Semíramis, com desenho feito pela própria Ana Miranda.


Em Semíramis, quem narra a história é Iriana, irmã da personagem que dá nome à trama. As irmãs têm uma relação de cumplicidade e amor que permeia todo o livro e, mesmo que em determinados momentos elas se distanciem fisicamente, continuam unidas em pensamento e também pelas cartas que trocam. Perto ou distante, Semíramis se manifesta de maneira intensa e manipuladora em relação à vida da irmã.

Semíramis e Iriana vivem no Ceará do século XIX, em um período em que a política era o que movimentava as cidades brasileiras. Após se tornar independente de Portugal, o Brasil começa a dar importantes passos rumo à proclamação da República. Nesse contexto, o interior do Ceará, onde vivem as irmãs, assiste aos constantes conflitos entre grupos rivais. Em meio a esse cenário, que se repete por todo o interior do Brasil, os conflitos políticos resultam em mortes e famílias destruídas.

Então, o que restaria para uma mulher? A resposta era simples: casar com um bom partido, ter filhos e, com muita sorte, ir morar no Rio de Janeiro. É o que acontece com Semíramis, que segue para a capital e deixa a família no Ceará. A partir de então, as irmãs começam a se comunicar por cartas que, durante muito tempo, levam Iriana a acreditar que Semíramis vive a felicidade plena.

A família de Iriana até tenta convencê-la, mas ela se recusa a viver uma vida de fachada, com casamento arranjado e um destino parecido com o de muitas mulheres da época. Nossa corajosa narradora prefere alimentar um amor platônico, por um menino que ela viu nascer e que acompanha à distância, um tal de Cazuzinha. O menino nascido no Ceará se tornaria um dos grandes escritores brasileiros, autor de obras como O Guarani e Iracema. Cazuzinha cresce, torna-se advogado, escritor e ganha reconhecimento na política, sendo conhecido como José de Alencar.

Em meio às aventuras de Iriana e Semíramis, o leitor acompanha os passos do escritor nordestino, que chegaria a ser ministro da Justiça e que é patrono da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras. Sem dúvida, a obra de Ana Miranda é uma aula de história brasileira. Nessa mistura de ficção e realidade é possível conhecer um pouco mais da trajetória de José de Alencar, um escritor do qual eu não tinha boas lembranças. No ensino fundamental, fui "obrigada" a ler algumas de suas obras para fazer trabalhos escolares. Ana me incentivou a querer conhecê-lo mais de perto, sem deveres e obrigações.

Alguns detalhes da vida de Alencar, porém, nunca serão confirmados. Um dos boatos mais conhecidos a respeito do escritor refere-se a seu segundo filho, Mário. Há quem diga que ele não era filho de José de Alencar, mas de Machado de Assis. O suposto triângulo amoroso teria servido como pano de fundo para uma das obras mais importantes de Assis: Dom Casmurro. Mas isso é outra história. Semíramis é uma ótima dica para quem curte literatura brasileira bem trabalhada, com toques de poesia e uma boa dose de história.


Ana Miranda, ganhadora de dois prêmios Jabuti (1990 e 2003).


Abaixo, trecho de Semíramis:

Chapéu ajardinado - Durante a viagem, parece que esquecido dos ciúmes, vovô virou naturalista. Entrava nos matos embastidos, eu atrás, ele colhendo folhinhas, gravetos e insetos, que ia espetando no chapéu de palha, onde secavam ao sol. Era curioso vê-lo caminhando na caatinga, com seu paletó tão alvo, botas altas, e aquele jardim sobre a cabeça, eu atrás, debaixo de uma sombrinha de chita, devíamos parecer um par de personagens saídos da imaginação de um romancista num país de fábulas. Ele me mostrava o que colhia, dando detalhes das corolas, das pétalas, aquela florzinha era fendida em cinco lacínias, a semente ouriçada, dava-se para eu espetar os dedos, acariciar flores solitárias e encarnadas, mostrava sinuosidade das folhas, as que serviam ao fabrico de cordas para redes, cotonias, lençarias e davam um linho muito alvo e vovô espetava um carrapicho no chapéu. E os coqueiros, que cousa mais linda os coqueiros balouçando nas areias, calmos, elegantes, eu nunca tinha visto um coqueiro de mar, nem tantos caroás juntos, e vovô entrava nos caroazais sem medo dos espinhos, me mandava ficar esperando e retornava com umas florzinhas discretas e separadas e me mostrava: esta é a espiga, este é o cálice, esta é a corola, estes os estames, e este, o pistilo cabeçudo. Eu saía dali toda arranhada, a barra da saia cheia de formigas, mas aprendi muito com essas viagens filosóficas de meu avô pelas caatingas, mais que tudo, aprendi que o que parece ser nada pode ocultar belezas, e mesmo nas mais singelas regiões da terra, ou da alma, se encontra a sustentação da vida, e que qualquer florzinha pode ser ponto de partida para uma infinidade de cousas.