segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Voltei e trouxe Ana Miranda comigo!

Depois de um tempo considerável (quase dois anos) sem postar nada por aqui, decidi voltar. Criei este blog em 2009, com o objetivo de compartilhar algumas opiniões minhas a respeito de coisas pelas quais me interesso, especialmente literatura e cinema. Continuo apaixonada por livros e filmes, mas agora também quero utilizar este espaço para tratar de outros assuntos que fazem parte da minha vida, como é o caso do estudo para concursos públicos e temas relacionados ao mundo jurídico.


Para marcar meu retorno ao blog, decidi escrever sobre Semíramis, o livro mais recente da autora brasileira Ana Miranda. Para quem não conhece a Ana, já falei sobre ela por aqui. Depois de ter lido algumas obras dessa cearense, como Dias & Dias, Boca do Inferno e O Retrato do Rei, resolvi me aventurar pelas páginas de Semíramis, até porque estava com saudade das personagens arrebatadoras e poeticamente construídas por Ana Miranda.


Capa do livro Semíramis, com desenho feito pela própria Ana Miranda.


Em Semíramis, quem narra a história é Iriana, irmã da personagem que dá nome à trama. As irmãs têm uma relação de cumplicidade e amor que permeia todo o livro e, mesmo que em determinados momentos elas se distanciem fisicamente, continuam unidas em pensamento e também pelas cartas que trocam. Perto ou distante, Semíramis se manifesta de maneira intensa e manipuladora em relação à vida da irmã.

Semíramis e Iriana vivem no Ceará do século XIX, em um período em que a política era o que movimentava as cidades brasileiras. Após se tornar independente de Portugal, o Brasil começa a dar importantes passos rumo à proclamação da República. Nesse contexto, o interior do Ceará, onde vivem as irmãs, assiste aos constantes conflitos entre grupos rivais. Em meio a esse cenário, que se repete por todo o interior do Brasil, os conflitos políticos resultam em mortes e famílias destruídas.

Então, o que restaria para uma mulher? A resposta era simples: casar com um bom partido, ter filhos e, com muita sorte, ir morar no Rio de Janeiro. É o que acontece com Semíramis, que segue para a capital e deixa a família no Ceará. A partir de então, as irmãs começam a se comunicar por cartas que, durante muito tempo, levam Iriana a acreditar que Semíramis vive a felicidade plena.

A família de Iriana até tenta convencê-la, mas ela se recusa a viver uma vida de fachada, com casamento arranjado e um destino parecido com o de muitas mulheres da época. Nossa corajosa narradora prefere alimentar um amor platônico, por um menino que ela viu nascer e que acompanha à distância, um tal de Cazuzinha. O menino nascido no Ceará se tornaria um dos grandes escritores brasileiros, autor de obras como O Guarani e Iracema. Cazuzinha cresce, torna-se advogado, escritor e ganha reconhecimento na política, sendo conhecido como José de Alencar.

Em meio às aventuras de Iriana e Semíramis, o leitor acompanha os passos do escritor nordestino, que chegaria a ser ministro da Justiça e que é patrono da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras. Sem dúvida, a obra de Ana Miranda é uma aula de história brasileira. Nessa mistura de ficção e realidade é possível conhecer um pouco mais da trajetória de José de Alencar, um escritor do qual eu não tinha boas lembranças. No ensino fundamental, fui "obrigada" a ler algumas de suas obras para fazer trabalhos escolares. Ana me incentivou a querer conhecê-lo mais de perto, sem deveres e obrigações.

Alguns detalhes da vida de Alencar, porém, nunca serão confirmados. Um dos boatos mais conhecidos a respeito do escritor refere-se a seu segundo filho, Mário. Há quem diga que ele não era filho de José de Alencar, mas de Machado de Assis. O suposto triângulo amoroso teria servido como pano de fundo para uma das obras mais importantes de Assis: Dom Casmurro. Mas isso é outra história. Semíramis é uma ótima dica para quem curte literatura brasileira bem trabalhada, com toques de poesia e uma boa dose de história.


Ana Miranda, ganhadora de dois prêmios Jabuti (1990 e 2003).


Abaixo, trecho de Semíramis:

Chapéu ajardinado - Durante a viagem, parece que esquecido dos ciúmes, vovô virou naturalista. Entrava nos matos embastidos, eu atrás, ele colhendo folhinhas, gravetos e insetos, que ia espetando no chapéu de palha, onde secavam ao sol. Era curioso vê-lo caminhando na caatinga, com seu paletó tão alvo, botas altas, e aquele jardim sobre a cabeça, eu atrás, debaixo de uma sombrinha de chita, devíamos parecer um par de personagens saídos da imaginação de um romancista num país de fábulas. Ele me mostrava o que colhia, dando detalhes das corolas, das pétalas, aquela florzinha era fendida em cinco lacínias, a semente ouriçada, dava-se para eu espetar os dedos, acariciar flores solitárias e encarnadas, mostrava sinuosidade das folhas, as que serviam ao fabrico de cordas para redes, cotonias, lençarias e davam um linho muito alvo e vovô espetava um carrapicho no chapéu. E os coqueiros, que cousa mais linda os coqueiros balouçando nas areias, calmos, elegantes, eu nunca tinha visto um coqueiro de mar, nem tantos caroás juntos, e vovô entrava nos caroazais sem medo dos espinhos, me mandava ficar esperando e retornava com umas florzinhas discretas e separadas e me mostrava: esta é a espiga, este é o cálice, esta é a corola, estes os estames, e este, o pistilo cabeçudo. Eu saía dali toda arranhada, a barra da saia cheia de formigas, mas aprendi muito com essas viagens filosóficas de meu avô pelas caatingas, mais que tudo, aprendi que o que parece ser nada pode ocultar belezas, e mesmo nas mais singelas regiões da terra, ou da alma, se encontra a sustentação da vida, e que qualquer florzinha pode ser ponto de partida para uma infinidade de cousas.

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