terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Dia de Poe.




Os sonhos sempre me fascinaram. Muitas vezes já me peguei tecendo reflexões sobre o que são os sonhos e porque eles acontecem. Mas esta semana, um sonho me deixou intrigada, especialmente diante dos fatos que vieram depois dele.

No sonho, eu estava sentada no banco de uma praça, na qual tenho certeza que nunca estive antes. Era noite e apenas duas luzes alaranjadas iluminavam o local. De repente, um homem de roupa preta, cabelo partido para o lado, bigode e olhar penetrante sentou-se ao meu lado.

Sem dizer nada, ele me entregou um livro vermelho, de capa dura, que trazia a frase: Histórias de mistério e terror. Então uma névoa intensa tomou conta da praça e eu acordei nesse momento, com a sensação de que o sonho era mais real do que parecia.

Decidi ir à cozinha beber água e, ao colocar os pés no chão, ao lado da cama, pisei em um livro. Para meu espanto, era o mesmo livro que me foi entregue no sonho, com Histórias de mistérios e terror de Edgar Allan Poe. Sim, eu tinha uma edição como aquela mas não me lembrava de tê-la tirado da estante recentemente. Como ele havia ido parar ali?

Na cozinha, enquanto tomava água, me lembrei do homem que me entregou o livro no sonho: era Allan Poe. Achando tudo aquilo muito estranho, resolvi afastar os questionamentos e voltei para a cama, afinal, o trabalho me esperava logo cedo.

Pela manhã, levantei cedo e devolvi o livro ao local da estante em que ele deveria estar. Após comer e tomar um banho, me dirigi ao trabalho, ainda impressionada com o sonho da madrugada.

No caminho para o trabalho, algumas coisas chamaram a minha atenção. Em um intervalo de dez minutos, vi dois carros que tinham nas placas as letras POE. Eram dois carros pretos, com vidros escuros, que não me permitiram identificar quem os conduzia.

Quando cheguei ao estacionamento do trabalho, gastei alguns minutos dentro do carro para me maquiar. Ao descer do veículo, fui surpreendida pelo grito agudo de um gato preto, que reclamava por eu ter pisado em seu longo rabo. Me assustei com o desespero do felino e quase levei um tombo.

Cheguei ao escritório com a sensação de que precisava mergulhar de cabeça no trabalho, para deixar alguns pensamentos inconvenientes de lado. Mas ao ligar o computador, me deparei com um recado em um post it colado à tela: William Wilson deseja falar com você. Na mensagem havia um número de telefone para o qual liguei insistentemente e ninguém atendeu.

Naquele dia, precisei buscar concentração além do normal para dar conta das atividades do trabalho. O sonho e todas aquelas referências a Allan Poe me pareciam muito estranhas. Era difícil não pensar em tudo aquilo.

Após um dia de trabalho sem muita produtividade, me coloquei a caminho de casa. No trajeto, ao ligar o som numa FM qualquer, ouvi a voz de Elis que, "como Poe, poeta louco americano", perguntava ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"  

Era mais uma referência a Allan Poe. Mais uma vez, seu nome povoava minha imaginação e meu dia. Eu, que tanto o admirava, buscava entender todas aquelas situações: os carros com a placa POE, o gato preto, o recado de um tal William Wilson e aquela música que cita o escritor, tocando bem no momento em que eu estava no carro.

Entrei em casa ainda desconcertada, com dúvidas que iam e vinham. Na busca por entender o que se passava, corri até a estante em busca do livro que havia deixado ali pela manhã. Eu sabia exatamente onde colocara a obra, mas fui novamente surpreendida pela sua ausência. Ela não estava mais lá. Fiz uma busca minuciosa na estante, mas foi sem sucesso. Até pensei que alguém tivesse tirado o livro dali. Era impossível. Ninguém esteve em minha casa naquela manhã.

Para acalmar os pensamentos e o coração, que batia acelerado, caminhei rapidamente até a cozinha, para beber um copo d'água. Na porta da geladeira, escrito em letras vermelhas, um bilhete anunciava: "Nevermore, nevermore".



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