terça-feira, 1 de novembro de 2016

Whole30: Novos horizontes, novas percepções.



No final de setembro decidi dar uma chance ao Crossfit, após os convites de alguns amigos que são apaixonados por esse tipo de treinamento. Fiz uma aula experimental na CrossFit Pantanal e resolvi continuar. Antes mesmo de me matricular, soube que durante o mês de outubro o box participaria de um programa chamado Whole30, que reúne boxes de todo o país.

Esse programa tem o objetivo de proporcionar, a partir de uma experiência de 30 dias, uma mudança na alimentação dos participantes. Esse objetivo é alcançado por meio de uma transformação da maneira como vemos os alimentos e passa pelo desafio de cortar alguns deles, muitos dos quais estão totalmente inseridos no nosso cotidiano, como pães, leite e derivados, produtos industrializados em geral, açúcar, etc.

Inicialmente, não me pareceu algo muito complicado, especialmente pelo fato de não consumir leite e derivados desde 2013, quando descobri a intolerância à lactose. Mas os primeiros dias foram desafiadores. Como senti falta daquele pãozinho no café da manhã! E quão desafiador foi não poder usar nenhum tipo de açúcar, nem mascavo, nem demerara, nem mesmo um adoçante.

Mas os dias se passaram e aquela experiência começou a fazer parte do meu cotidiano. O café amargo já não era tão amargo assim e a necessidade de doce diminuiu. Busquei me organizar cada vez mais, dedicar mais tempo para preparar meus alimentos, montar marmitas e, com isso, evitar alimentações fora de casa (o que me auxiliou a fugir das tentações).

Ao mesmo tempo em que me habituava às mudanças alimentares, também precisava pegar o ritmo do Crossfit. Nesse caso, minha estratégia foi não faltar aos treinos, por maiores que fossem as dores musculares. 

Após um mês, confesso que experimentei algumas surpresas. A primeira delas aconteceu no dia 31/10, quando repetimos um treino realizado no início da dieta. Fiquei impressionada quando verifiquei que consegui reduzir meu tempo do treino em quatro minutos. Sem falar dos resultados da bioimpedância: redução de quase 4% no percentual de gordura corporal, menos 2,4 kg de massa de gordura e ainda apresentei ganho de massa muscular. Para um único mês, esses resultados me deixaram muito motivada.

Mas o principal ganho disso tudo está relacionado às mudanças de percepções que pude experimentar no decorrer do mês e que ainda estou experimentando. Essa participação no Whole30 me fez enxergar a alimentação a partir de novos horizontes, novas perspectivas e, com isso, pude estimular a minha consciência corporal. Sem falar das possibilidades de romper barreiras e acreditar mais no meu potencial, o que tenho sentido de forma muito intensa através do Crossfit.

O Whole30 foi só o começo. Que venham muitos outros dias de vida mais saudável, com a consciência de que não somos reféns da comida.


Uma pequena decisão pode causar uma grande mudança.





sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nas mãos de Ursula


Quando adolescente, boa parte do que eu lia eram obras escritas por mulheres, uma preferência que não era premeditada. No processo de amadurecimento que a adolescência representou para mim, ler mulheres fazia parte de um movimento de identificação. Na maioria das vezes, as obras diziam exatamente aquilo que eu, com o coração e a cabeça fervilhando, não conseguia dizer.

Passada essa fase, percebo que deixei as escritoras de lado e não sei explicar o motivo. Simplesmente outras leituras me enfeitiçaram e eu atendi ao chamado. Recentemente, comecei a sentir uma necessidade de retomar a leitura de mulheres, porque eu, enquanto mulher, percebo a inspiração e a motivação que essas autoras provocam em mim. 

Então escolhi Ursula Le Guin e seu clássico “A mão esquerda da escuridão” para serem minhas inspirações nesse momento. Ursula é uma escritora de fantasia e ficção científica nascida nos Estados Unidos, em 1929. Ela publicou “A mão esquerda” em 1969 e, com ele, ganhou prêmios como o Hugo e Nebula. Entre as influências de Ursula estão escritores como Tolkien e Philip K. Dick


Ursula Le Guin, que atualmente está com 86 anos.


Em “A mão esquerda da escuridão”, Ursula conta a saga de Genly Ai, um emissário terráqueo da federação galática Ekumen, que chega ao Planeta Gethen (também chamado de Planeta Inverno) com a missão de convencer as autoridades do local a unirem-se ao Ekumen. Genly Ai tem uma missão política e, para dar conta dela, contará com o apoio de alguns personagens importantes no panorama político de Gethen.

Um desses personagens é Therem Harth rem ir Estraven, ex-primeiro-ministro em Karhide, uma das nações de Gethen. Estraven é banido de sua nação e perde sua autoridade diante da acusação de traição. Ele teria recomendado, “sob pretexto de real serviço ao rei (Argaven), que a Nação-Domínio de Karhide abrisse mão de sua soberania e abdicasse de seu poder para tornar-se uma nação inferior, súdita de uma certa União dos Povos (Ekumen)”.


Diante do exílio de Estraven, o emissário Genly Ai busca apoio para sua missão em outra nação, Orgoreyn, vizinha e rival de Karhide. Embora seja muito bem recebido pelos orgotas, Genly Ai torna-se vítima de uma conspiração que pode levar seus planos ao fracasso. Então ele percebe que deve voltar a Karhide. 






A partir dessa trama política, Le Guin faz um primoroso trabalho de descrição das brancas e solitárias paisagens de Inverno, além do brilhante processo de construção psicológica dos personagens, especialmente Genly Ai e Estraven, entre os quais nasce uma forte amizade. Esse poder de descrição da autora pode ser percebido em trechos como: 


“No crepúsculo do quarto dia de viagem a partir de Erhenrang, chegamos a Rer. Separam essas duas cidades quase mil e oitocentos quilômetros, um paredão montanhoso de milhares de metros de altura e dois ou três mil anos. A caravana parou do lado externo do Portal Oeste, onde seria movida para barcaças de canal. Nenhum barco terrestre ou carro pode entrar em Rer. (…) Não existem ruas em Rer. Há passeios cobertos, semelhantes a túneis, que no verão podem ser atravessados por dentro ou por cima, como se queira. As casas, ilhas e Lares espalham-se desordenadamente, caóticos, em uma confusão profusa e prodigiosa que subitamente culmina em esplendor”.

Com a história de Genly Ai e de sua saga no planeta Inverno, Ursula desenvolve uma de suas principais características, que é justamente mostrar o estranhamento e o processo de aceitação pelo qual o emissário terráqueo é submetido ao chegar a um planeta com costumes e realidades tão diferentes dos seus. Assim, a autora trabalha questões sociológicas, antropológicas e psicológicas relacionadas ao processo de interação entre culturas tão distintas.


Uma das principais diferenças apresentadas pelos gethenianos em relação aos terráqueos é a questão  do sexo. Em Gethen, todas as pessoas têm gênero indeterminado e podem, em certos momentos, assumir o gênero masculino ou o gênero feminino. Como isso funciona, prefiro deixar a própria Le Guin explicar:



“O ciclo sexual dura, em média, de 26 a 28 dias (…) e, no 22º ou 23º dia, o indivíduo entra no kemmer, o cio. Nesta primeira fase do kemmer, ele permanece completamente andrógino. (…) Quando o indivíduo encontra um parceiro no kemmer, a secreção hormonal recebe novo estímulo até que, num dos parceiros, ocorra a dominância hormonal masculina ou feminina. Os órgãos genitais crescem ou encolhem, conforme o caso, as preliminares se intensificam e o outro parceiro, provocado pela mudança, assume o papel sexual oposto”.

A partir do kemmer, se o indivíduo que estava no papel feminino engravidar, segue a atividade hormonal de forma que, durante a gestação, ele permanecerá feminino. Após o nascimento do filho, o indivíduo retorna ao somer, o estado original, andrógino.


Com todo seu poder criativo, a escritora mexe com nossas crenças e percepções, sem a intenção de lançar alguma proposta futurista, afinal, como ela mesma ressalta: “A ficção científica não prevê; descreve. Previsões são feitas por profetas (de graça); por videntes (que geralmente cobram um honorário e, portanto, são mais respeitados em sua época do que os profetas); e por futurólogos (assalariados). Previsões são o trabalho de profetas, videntes e futurólogos. Não são o trabalho de romancistas. O trabalho do romancista é mentir”.


Nesse contexto, Ursula mente muito bem!




Obs.: as principais obras de Le Guin são divididas em dois ciclos: Terramar e Hainish. "A mão esquerda da escuridão" é uma das sete obras que integram o ciclo Hainish.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O que faz você se sentir vivo?


Olho o relógio. São 13 horas e 30 minutos. O coração bate acelerado, as gotas de suor escorrem pelo corpo, enquanto me esforço para concluir mais uma série de exercícios na academia. As pernas reclamam, mandam sinais de que vão parar, de que não aguentam mais, mas, em pensamento, repito: falta pouco, não pode parar agora! Falta pouco, não pode parar agora! E assim sigo, tentando não pensar nas razões para desistir.

Série concluída, deito no colchonete para encarar mais alguns abdominais. São os últimos do dia. Após vencê-los, restará a esteira e depois o caminho de casa. Finalizo os abdominais e deixo o corpo relaxar, tomado pela exaustão. Olhos fechados, busco me concentrar na respiração. Ali, deitada sobre o colchonete, percebo o coração batendo forte, acelerado, mostrando que a vida está em mim.

No caminho de casa, enquanto dirijo, aproveito para fazer reflexões. Às vezes prefiro ouvir música ao volante, outras vezes prefiro usar esses momentos para pensar na vida, nas experiências, nas decisões que preciso tomar, em coisas que posso melhorar. No caminho, lembro dos momentos na academia, do coração querendo saltar do peito e do sentimento de alegria por estar viva.

Então começo a pensar em outras situações que trazem esse sentimento, essa potência de vida. Uma viagem, um livro, aquela música, o passeio de bicicleta com o vento no rosto, um bolo para receber os amigos, a busca pelo conhecimento, as mãos entrelaçadas, o trabalho finalizado, poemas, telefonemas, olhares, abraços.

Os motivos podem ser diversos, para todos os gostos e bolsos, afinal, dinheiro não é garantia de realização. O que importa, de verdade, é sentir esse pulsar que nasce no peito e nos leva a seguir em busca do novo, do que realmente vai valer a pena. Mas a vida anda tão corrida, são tantos compromissos, como priorizar esses momentos motivadores?

Chego em casa e procuro minha agenda para confirmar o horário de uma consulta médica. Ela está repleta de compromissos firmados no automático, alguns deles por obrigação, por não saber dizer não. Isso é um reflexo. Simbolicamente, decido deixar essa agenda de lado e comprar uma nova. Nas páginas em branco, a oportunidade de recomeçar, de transformar e priorizar os momentos em que me sinto viva e não apenas levando a vida.