sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nas mãos de Ursula


Quando adolescente, boa parte do que eu lia eram obras escritas por mulheres, uma preferência que não era premeditada. No processo de amadurecimento que a adolescência representou para mim, ler mulheres fazia parte de um movimento de identificação. Na maioria das vezes, as obras diziam exatamente aquilo que eu, com o coração e a cabeça fervilhando, não conseguia dizer.

Passada essa fase, percebo que deixei as escritoras de lado e não sei explicar o motivo. Simplesmente outras leituras me enfeitiçaram e eu atendi ao chamado. Recentemente, comecei a sentir uma necessidade de retomar a leitura de mulheres, porque eu, enquanto mulher, percebo a inspiração e a motivação que essas autoras provocam em mim. 

Então escolhi Ursula Le Guin e seu clássico “A mão esquerda da escuridão” para serem minhas inspirações nesse momento. Ursula é uma escritora de fantasia e ficção científica nascida nos Estados Unidos, em 1929. Ela publicou “A mão esquerda” em 1969 e, com ele, ganhou prêmios como o Hugo e Nebula. Entre as influências de Ursula estão escritores como Tolkien e Philip K. Dick


Ursula Le Guin, que atualmente está com 86 anos.


Em “A mão esquerda da escuridão”, Ursula conta a saga de Genly Ai, um emissário terráqueo da federação galática Ekumen, que chega ao Planeta Gethen (também chamado de Planeta Inverno) com a missão de convencer as autoridades do local a unirem-se ao Ekumen. Genly Ai tem uma missão política e, para dar conta dela, contará com o apoio de alguns personagens importantes no panorama político de Gethen.

Um desses personagens é Therem Harth rem ir Estraven, ex-primeiro-ministro em Karhide, uma das nações de Gethen. Estraven é banido de sua nação e perde sua autoridade diante da acusação de traição. Ele teria recomendado, “sob pretexto de real serviço ao rei (Argaven), que a Nação-Domínio de Karhide abrisse mão de sua soberania e abdicasse de seu poder para tornar-se uma nação inferior, súdita de uma certa União dos Povos (Ekumen)”.


Diante do exílio de Estraven, o emissário Genly Ai busca apoio para sua missão em outra nação, Orgoreyn, vizinha e rival de Karhide. Embora seja muito bem recebido pelos orgotas, Genly Ai torna-se vítima de uma conspiração que pode levar seus planos ao fracasso. Então ele percebe que deve voltar a Karhide. 






A partir dessa trama política, Le Guin faz um primoroso trabalho de descrição das brancas e solitárias paisagens de Inverno, além do brilhante processo de construção psicológica dos personagens, especialmente Genly Ai e Estraven, entre os quais nasce uma forte amizade. Esse poder de descrição da autora pode ser percebido em trechos como: 


“No crepúsculo do quarto dia de viagem a partir de Erhenrang, chegamos a Rer. Separam essas duas cidades quase mil e oitocentos quilômetros, um paredão montanhoso de milhares de metros de altura e dois ou três mil anos. A caravana parou do lado externo do Portal Oeste, onde seria movida para barcaças de canal. Nenhum barco terrestre ou carro pode entrar em Rer. (…) Não existem ruas em Rer. Há passeios cobertos, semelhantes a túneis, que no verão podem ser atravessados por dentro ou por cima, como se queira. As casas, ilhas e Lares espalham-se desordenadamente, caóticos, em uma confusão profusa e prodigiosa que subitamente culmina em esplendor”.

Com a história de Genly Ai e de sua saga no planeta Inverno, Ursula desenvolve uma de suas principais características, que é justamente mostrar o estranhamento e o processo de aceitação pelo qual o emissário terráqueo é submetido ao chegar a um planeta com costumes e realidades tão diferentes dos seus. Assim, a autora trabalha questões sociológicas, antropológicas e psicológicas relacionadas ao processo de interação entre culturas tão distintas.


Uma das principais diferenças apresentadas pelos gethenianos em relação aos terráqueos é a questão  do sexo. Em Gethen, todas as pessoas têm gênero indeterminado e podem, em certos momentos, assumir o gênero masculino ou o gênero feminino. Como isso funciona, prefiro deixar a própria Le Guin explicar:



“O ciclo sexual dura, em média, de 26 a 28 dias (…) e, no 22º ou 23º dia, o indivíduo entra no kemmer, o cio. Nesta primeira fase do kemmer, ele permanece completamente andrógino. (…) Quando o indivíduo encontra um parceiro no kemmer, a secreção hormonal recebe novo estímulo até que, num dos parceiros, ocorra a dominância hormonal masculina ou feminina. Os órgãos genitais crescem ou encolhem, conforme o caso, as preliminares se intensificam e o outro parceiro, provocado pela mudança, assume o papel sexual oposto”.

A partir do kemmer, se o indivíduo que estava no papel feminino engravidar, segue a atividade hormonal de forma que, durante a gestação, ele permanecerá feminino. Após o nascimento do filho, o indivíduo retorna ao somer, o estado original, andrógino.


Com todo seu poder criativo, a escritora mexe com nossas crenças e percepções, sem a intenção de lançar alguma proposta futurista, afinal, como ela mesma ressalta: “A ficção científica não prevê; descreve. Previsões são feitas por profetas (de graça); por videntes (que geralmente cobram um honorário e, portanto, são mais respeitados em sua época do que os profetas); e por futurólogos (assalariados). Previsões são o trabalho de profetas, videntes e futurólogos. Não são o trabalho de romancistas. O trabalho do romancista é mentir”.


Nesse contexto, Ursula mente muito bem!




Obs.: as principais obras de Le Guin são divididas em dois ciclos: Terramar e Hainish. "A mão esquerda da escuridão" é uma das sete obras que integram o ciclo Hainish.

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